domingo, 16 de abril de 2017

Iminência

O antes e depois de um abraço imaterial.

por Matheus Campos



Antes de tudo, peço perdão pelo pecado de escrever palavras melancólicas em noite de lua cheia. Juro que contemplei com sensibilidade toda a beleza da qual me foi apresentada, mas não consegui escapar do abraço de um espírito abatido, que há tempos clama por minha atenção. Tolice a minha achar que poderia fugir. Eu já compreendi que, de alguma forma, ele sempre volta. Mas às vezes eu quero acreditar na possibilidade de controlar a minha própria vida. É invariável. Ainda não me acostumei por completo com o fato de que sou filho e herdeiro de um destino irônico que também depende da minha vontade.

Aliás, confesso que essa minha resistência àquilo que já se faz presente é parte de certo fetichismo. Sinto prazer em descobrir sensações – afinal, elas só são descobertas em atos de rebeldia. É uma contínua busca de controle dos sentidos que vão além da carne, além da alma. O abraço melancólico do meu encosto não é ruim, pelo contrário. Sinto-me aquecido e acompanhado. Mas eu tento resistir. Resisto para criar uma batalha de contrários: o amargo ao doce. A solidão à companhia. O ímpeto à paciência. Etc.

Só assim as coisas poderiam caminhar. A longa e tediosa estrada bifurca-se após os conflitos.

O problema é que não tenho força o suficiente para confrontar os meus contrários perfeitos, ou seja, tudo aquilo que já é por si só: o tempo, as dúvidas, os medos, os desejos. A incerteza. Todas essas coisas constituem a forma imaterial do espírito que olha para e por mim– por vezes angelical, noutras demoníaco.

Concedi então, pela primeira vez, a permissão do abraço sem medo. Ironicamente descobri uma sensação nova também ao ser acarinhado: a iminência. Enquanto não havia batalhas, nada acontecia. Surgia então a sensação de ameaça, aproximação, urgência. Mas do quê? Não soube e não teria como saber. Eis o desespero: o logo, o quase, o não concluído.

Sei que o intuito do desconhecido é também me trazer paz. Quantas almas errantes poderiam encontrar refúgio neste abraço que deriva no vazio?

O meu sufoco surge por conta de eu ser imbuído de propósitos. Ou por pensar que sou.

Fecho os olhos e busco adentrar na realidade sonífera. O abraço se desfaz. As sensações morrem antes do amanhecer para, logo mais, dar lugar a outras.

O espírito, portanto, fica iminente ao meu renascimento.




domingo, 19 de fevereiro de 2017

Nudez

por Matheus Campos

Sinto um calor absurdo enquanto caminho e percebo que o céu está nu. Sem nuvens que indiquem posterior chuva, sem nenhuma possibilidade de sombra num campo aberto. É inegavelmente bonito, mas um pouco desagradável. A nudez do céu aberto iluminado pelos raios de sol não abre espaço para a graciosidade dos ventos mais suaves. Sinto-me exposto e meu suor me incrimina.
Abismado pela ousadia do universo de escancarar parte de sua grandeza, quis fazer o mesmo. Tive um súbito desejo de também ficar nu. Sem vergonha, sem medo da humilhação: queria me desafiar não apenas a uma quebra de tabu, mas também para compreender se a liberdade da minha natureza é comparável a do mundo que me sonda.

Quão invulgar seria se existíssemos à nossa maneira? Se não renunciássemos aos nossos demônios sem deixar de valorizar nossas virtudes?  Somos condicionados a nos esconder: cobrir para manter seguro. A falsa segurança que não possibilita a leveza da nudez diante de outros. Não somente a do corpo, mas as camadas de vestimentas que permeiam as nossas almas.

Revelar-se é um ato revolucionário.  Despir-se. A nudez da palavra dita ao invés do silêncio que grita. A nudez das sensações. A nudez dos sentimentos poeticamente estruturados.  A nudez percebida pelo olhar do outro, que é também uma revelação.

A condição humana nos torna seletivos em relação ao que revelamos. Mas é incontestável que há certo charme nisso - nos nossos mistérios tão semelhantes que, no final das contas, ninguém tem mistério nenhum.

Somos seduzidos a buscar o oculto. O prazer de revelar o que está por trás. Há dois flancos: a vestimenta do corpo e a roupa da essência, a personalidade.

O corpo exposto sem pudor é o grito de alívio após tempos de sufoco. Cada olhar é um resgate. Cada toque é uma libertação. Orgasmo é uma forma de adoração: percorrer inteiramente pela nudez do outro e percorrer por si mesmo, com prazer, é a exaltação da alma.

Já a nudez que representa a honestidade do Ser - por exemplo, pelos olhares, sorrisos, abraços, etc. -, muitas vezes é velada. O afeto verdadeiro é difícil de descobrir, mas é o que tem o maior potencial de nos despir profundamente.

Quem dera pudéssemos estar preparados para o nu em sua totalidade, no coletivo. Não estaremos. Não há a liberdade necessária. Até o céu ganha a roupagem das nuvens, das estrelas. E o meu corpo, quente, por ter o Sol como alma, é coberto.
Minha nudez esfria.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Estranhos temporários

Uma noite fria, um copo de cerveja e a urgência de uma sensação.

por Matheus Campos

Em contraponto à música alta e à euforia das pessoas, era possível me encontrar em silêncio, sentado frente à uma mesa com um copo de cerveja na mão. Bebia em goles pequenos, pois não queria me embebedar naquele momento. Meu estado ébrio costuma me confundir e já não tinha mais espaço para confusões. Não podia mais brincar com minha própria felicidade que, uma vez sentida, é posta à prova em minhas ações. Não era cabível eu passar por avaliações naquela rara condição de lucidez. Sentia-me alheio - ao ambiente, aos outros, a mim mesmo.

É precisamente nesses momentos de intranquilidade do ser que constatamos as verdades mais cruas sobre nós mesmos. Somos luz e sombra em constante evolução, mas com uma agridoce certeza de que também somos temporários. A luz se apaga, a sombra conflui com o breu. Naquele instante eu era escuridão, como a própria noite, mas brilhavam pequenas luzes em mim, como as estrelas.

Foi quando me dei conta de que eu era estranho a mim. Os outros também eram estranhos a mim. Eu os desconhecia e isso me assustava, porém, ao mesmo tempo, havia uma estranha sensação de querer conhecê-los. Ou melhor, de querer me conhecer e, consequentemente, torná-los cientes desse autoconhecimento. É um processo que interfere no próximo. Eu sou eu e sou os outros: o individual e o coletivo numa só sintonia.

No entanto, estávamos tão distantes. As coisas que nos uniam eram rasas, mas não deviam ser: os beijos, as danças, as bebidas. Escapes, fugas, quando deveria haver entregas, aprofundamento. Eu sentia urgência, ânsia, vontade: eu queria fazer parte e não me sentir a parte. Eu desejava euforicamente por algo que fosse verdadeiro. Eu queria me amar, eu queria poder amá-los.

E então, em um momento de distração atenta, eu o vi. Aquele que era o mais estranho para mim, mas sempre me atraiu. Seu nome é Paixão. Inesperadamente ele apareceu naquela festa. Deixei o copo de cerveja na mesa e me envolvi com o objetivo de chegar mais perto. De início pensei que estava sonhando, mas senti seu toque. Era real. 

Já não estava mais lúcido. Já não era mais escuridão: me tornei somente luz que brilhava com a mesma intensidade que o fogo queima. Quantas promessas cabem num abraço e num beijo despretensioso? Eu estava prestes a descobrir. 

Abracei, toquei, senti. Desequilibrei-me. Por um momento a racionalidade anterior já não fazia mais sentido. Sentir fazia sentido. E eu senti, ah, como senti! Com a máxima profundidade que se pode sentir. O engraçado é que em menos de 20 minutos Paixão já não me era estranho, mas todo o resto ainda era. Só que isso já não importava mais: nessa estranheza nos encontramos através do sentir. Os estranhos não são meus desiguais, pelo contrário: são minhas possibilidades. 

Que sejamos então. 






quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O perigo da imprecisão em tempos de pós-verdades

Por Matheus Campos

Na sociedade contemporânea, é evidente que há uma facilidade de acesso às informações e, consequentemente, de criar opiniões acerca delas. Com o advento das mídias digitais e das redes sociais, se estabelece um terreno de propagação de conhecimentos que por vezes impressiona, noutras assusta, pois na medida em que é um novo espaço para se informar e ter voz, é também um recinto que engloba falácias e sensacionalismos. Esse fenômeno, ainda recente e passível de análises, afeta vários flancos: políticos, jurídicos, econômicos, e até mesmo em vidas pessoais. Mas o principal a se analisar são justamente as conseqüências numa área que é diretamente ligada ao ato de informar e opinar: a do jornalismo.

Dentro desse contexto da comunicação social, existem as vertentes daquilo que é informativo e do que é opinativo, mas com um porém: ambos necessitam de precisão e fatos objetivos para se concretizarem de maneira genuína. Erros históricos nascem da imprecisão. Profissionais como os repórteres têm o dever de serem contundentes e não emitirem juízos, pois qualquer mínimo erro ao retratar um cenário, uma história, ocasiona a falha daquele que vai expor a opinião e, consequentemente, a diversos setores da sociedade, afinal, quando um erra, a cadeia toda pode falhar: o advogado, o sociólogo, o antropólogo e mais para frente o historiador.

Com a brecha da internet de haver mais possibilidades no processo de se informar e reproduzir a informação, é necessário o dobro da preocupação na busca de fontes e na exigência da precisão ao apurar as notícias. A história sempre foi inicialmente escrita pelos veículos de comunicação e agora existem novas formas de abordá-la. Isso faz com que seja aberto um cenário de muitas incertezas e incognoscibilidades quanto ao futuro – tanto na área do jornalismo como na vida em si.

Recentemente, o Dicionário Oxford definiu “Pós-verdade” como a palavra do ano. O termo se refere a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais. Faz sentido trazer à tona esse conceito, pois isso se agrava precisamente de acordo com esse cenário agridoce da emissão de informações e opiniões nas redes digitais.

No aspecto das instituições de comunicação, autores das notícias não possuem emancipação total ao escrever e apurar, pois a liberdade de dar aval ao que será publicado e o tom das informações pertencem ao dono do veículo onde se trabalha – no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Ao ligar esse fato ao significado da palavra pós-verdade na sociedade civil, é notório que se amplia o espaço às percepções corporativas e políticas pelos meios de comunicação - e suas emoções e crenças condizentes às suas ideologias. Portanto, é muito complicada e sutil a distinção entre ser um agente de opinião ou simplesmente um porta-voz de autoridade. E, principalmente, entre um verdadeiro agente de informação ou mais um enredado nas armadilhas e segmentações ocasionadas pelas redes e pelo contágio das pós-verdades.





quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Alter ego


A construção do meu outro eu é a minha desconstrução mundana. 
O primeiro passo é sempre a dúvida.

por Matheus Campos


Incertezas  
                                  
Foi-me dito que tudo é uma grande ilusão. 
Querida amiga, por favor, não me deixe acreditar nisso. Conte-me uma de suas histórias que me ajudam a ter esperança. Apresente-me novamente à luz antes que eu obscureça no limiar da insanidade. Encontro-me num cambaleio de crenças e suposições entre a palavra espiritual e a palavra terrena. Onde você se encontra? Onde deveríamos nos encontrar? - aliás, quando foi que nos perdemos?
Não imponho minhas considerações acerca de minhas próprias dúvidas, pois não tenho convicção de nenhuma delas. Eu sei que deveria ter. A certeza deveria habitar na significação nos sentimentos ou da racionalidade - mas não há. Como hei de viver sem ela?
Por um tempo a ilógica da fé me desabituou ao pensamento. Eu era preciso naquilo que era incerto. 
Agora, portanto, penso e cambaleio. Com todas as minhas incertezas e desequilíbrios, tento procurar a ti e consequentemente a mim. 
Cadê você, querida amiga?


Desejos

O prazer não é ilusório. 
Prazer, doce e venenoso prazer. O verdadeiro sentido de tudo se encontra no sentir e não no saber. Está nas minhas satisfações, no luxo da minha carne, no pecado do meu corpo nu. Quantas sensações cabem na contemplação da beleza do outro, na suavidade do olhar, na tempestuosidade da paixão? A minha imaginação me dá a oportunidade de me tocar e fingir que você está aqui.  Dois amantes. Duas facetas apaixonadas. O prazer escorre lentamente por mim. 
Toque. Olhar. Sentir.
E então respiro do seu ar.
Bebo do elixir da sua essência.
Seu gosto é agridoce.
Confundimos um ao outro e já não sabemos quem éramos. Não sabemos quem somos. 
Cadê você, il mio amore?


Metamorfose

A arte é o máximo alcance de estar vivo.
Transfiguro-me nas minhas fantasias e as torno reais. Crio personagens em minhas poesias, em minhas canções, em minhas histórias fictícias: eles se adaptam, têm recaídas e, principalmente, se reconciliam com o meu passado. Na arte há disciplina e impulsividade. Há metamorfose.  A cada passo de dança me deparo com a morte e a conduzo para meu bel-prazer. 
Canto, danço, imagino: uma vez, duas vezes. Quantas vezes for possível. 
Aos poucos me canso. Sinto dor e ainda sim me sinto satisfeito.
Eis o poder da estética e da criatividade.
Eis a minha capacidade de me reinventar. 
Cadê você, estabilidade?



Ambição

Há uma enorme frustração nas limitações do dia a dia.
A rotina e as obrigações. Os medos. As injustiças. O que ambicionar? Até onde podemos chegar?
Até quando devo tentar me encaixar?
Estar vivo me dá a capacidade de tirar tudo o que posso do que me permeia. Tudo a meu favor. O meu poder está na minha resistência contra o que esperam de mim. A minha ambição é ser mais do que eu espero de mim.
Os meus questionamentos, os meus desejos e a minha arte se confluem.
Cadê você, foco?


Presente

Revérbero pelas possibilidades e me sinto ameaçado pelo pessimismo. Por que temos perguntas se não para serem respondidas? Por que temos desejos se não para realizá-los? Por que temos a arte se não para demonstrá-la?

As palavras são a minha catarse!

Mas... sei que ainda não estou livre, pois ainda não o encontrei.
Cadê você?

...

Quem é você?


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"Como se sua vida se emancipasse e tivesse de repente seus próprios interesses, que não correspondiam de maneira alguma aos dele. Ele se sente responsável por seu destino, mas seu destino não se sente responsável por ele."  Milan Kundera. 

     

domingo, 11 de setembro de 2016

Quando os velhos espíritos dançam

por Matheus Campos


Já são quase 2 horas da manhã e os espíritos mais velhos dançam alegremente nas ruas – eles aproveitam a oportunidade que a maioria dos vivos está desacordada. É propício. É bonito.
Silenciosamente, de mãos dadas, eles formam um círculo. Eles rodam. Eles voam pelo céu estrelado. Criam-se os ventos que batem nas portas e nas janelas das casas, quase como um aviso sutil da festa dos mortos. Viva! Viva! Há alegria do outro lado da vida e ela está revestida pela morte!
 Um quarto de uma das residências está com a luz acesa: as almas, portanto, o invadem através das sombras, mas sem a intenção nenhuma de acordar quem quer que esteja lá. Os movimentos são suaves e até mesmo poéticos. A comemoração dos espíritos antigos é, de fato, o evento mais cordial que a humanidade pode receber. Regozijai-vos então.
Enquanto a alegria paira no ar, eles dançam com fervor e leveza.
Silêncio.
A luz está acesa.
Os ventos batem nas janelas e nas portas.
A noite é curta e essa vida também.
Eis que um menino de dentro do quarto iluminado acorda. Toma um grande susto: sombras (muitas delas) dançam na sua parede! Ele contém o grito, mas não deixa de expressar seu espanto em sua face. Fica paralisado pelo medo e tragicamente urina deitado na cama - está tão assustado que não se envergonha pelo ato.
Eis que os espíritos percebem o olhar ingênuo e interrompem a dança para encará-lo de volta. As sombras desaparecem, mas eles – os mortos - não vão embora tão cedo. Querem conhecer mais do garoto que acabou com a celebração não-viva das almas transgressoras.
É um momento inquietantemente tácito, até que um dos espíritos se aproxima e o reconhece. É óbvio que o reconheceria: o menino é ele mesmo. Ou melhor, é o seu corpo emprestado para passar por esses tempos. “É tão bonito”, a alma pensa. Enquanto a carne não pensa e apenas sente o pânico de presenciar o desconhecido.
“Conte-me seus medos”, pede a alma obsequiosamente.
O garoto, mais calmo ao reconhecer sua própria voz, responde a si mesmo pela mente da matéria:
“Por que sou tão limitado?”
Não satisfeito, continua a se questionar:
“Por que você me escolheu para ser?”
Ao ouvir a última pergunta, o espírito esvaece e a luz do quarto, de alguma maneira, é apagada. O garoto, que já não sabe se está vivo por falar com sua própria morte, fecha os olhos a fim de acabar com essa cena.
Ao abrir novamente, já é de manhã.
Era um sonho?
Vive-se então mais um dia sem obter respostas.
Anoitece mais uma vez e ele, dessa vez, não consegue mais dormir. Espera com certa ânsia e pavor os espíritos aparecerem novamente.
Eles tardam, mas realmente aparecem. Eles sempre retornam.
Só que dessa vez não é uma festa. A morte não está mais dançando. Eles estão de luto. E o que acontece quando a morte entra em estado de luto? O que será que já está morto e deve morrer outras vezes?
O menino, sem saber se é vida ou se é sonho, se é ilusão ou se é a verdade, passa a ver imagens de si mesmo. Imagens dele no passado, imagens dele aparentemente mais velho... Todas as imagens sussurram palavras das quais ele desconhece e, logo em seguida, vão tomando formas de sombras nas paredes, como aquelas que dançavam na noite anterior.
Tudo parece muito incerto, mas, aos poucos, ele vai descobrindo o segredo daquelas almas antigas que festejam e ficam de luto:
São todas suas. Todas.
Para onde elas vão depois disso?
Para onde ele vai?
Para onde eu vou?
Silêncio.
A luz se apaga.
Os ventos batem nas janelas e nas portas.
A noite é curta e essa vida também.


sábado, 20 de agosto de 2016

Reflexo

Por Matheus Campos

Era uma noite fria e chuvosa de sábado e eu estava enclausurado em meu quarto. Pensava cautelosamente na minha rotina diária e me sentia exausto pela pressão: trabalhos, estudos a concluir... Sentia-me intranquilo pela obrigação de produzir e prestar contas aos outros. Esmoreci.
Foi quando, distraído, me olhei através do reflexo de um espelho. E então, lentamente, foi surgindo um pequeno assombro em meu ser: Eu não identifiquei a mim ao me ver!
Descobri que não me conheço! Na imagem refletida me estranhei e, todo trêmulo, me infantilizei pelo espanto da descoberta – eu existo e não me compreendo!
Passei a contemplar o meu eu que me encarava. Quis fazer muitas perguntas a ele, mas era inútil. Tudo que eu o dissesse seria em vão: as respostas são as minhas palavras do mesmo instante. A resposta é a pergunta e o som vem de mim.
Apesar de que aquela imagem, a qual deveria ser eu, não era. Não era! Quem sou então?
Eu o amo? Eu me amo?
Eis o caos: Eu deveria amar o que eu vejo?
O amor, na minha pífia compreensão, é a afeição pelo outro por conta dos laços de consanguinidade ou de relações sociais.
A contiguidade dos fatos me confunde: o meu reflexo não tem as minhas memórias, as minhas preocupações, os meus desejos.
Toquei-me com o intuito de sentir o que eu estava sendo. Meu eu refletido imitava meus gestos, mas tenho a certeza de que não sentia o mesmo. Ele não podia roubar a minha essência. Tínhamos, no entanto, uma coisa em comum: não estávamos livres.
Desarmado, eu tinha medo. Apaixonado, eu era incerto.
Continuei a olhar para o meu reflexo.
Olhando-me questiono: O que você faria para ter o que quer?
Revoltado, sem receber nenhum retorno, quebrei o espelho. Quebrei-o em pedaços que se espalharam pelo chão. Assassinei a minha imagem. Destruí o fardo de mim mesmo.
Eis um fato curioso: dessa maneira, recebi uma resposta.
O objeto quebrado constituía o meu poder de decisão. Partes de mim (de outrora) estavam no chão do meu quarto e assim aumentaram as minhas perspectivas de reflexo. As possibilidades são inúmeras.
Rendo-me, portanto, ao acaso de que outro eu me olhe e me desconheça. Espero ansiosamente para ser quebrado também.