sábado, 15 de julho de 2017

Amor em quatro elementos

I.
Amor é vital, que nem água.
Flui que nem rio.
É sereno como um mar calmo.
Mergulhe. Afogue-se.
Ou beba.
Amor é também a sensação de matar a sede.

II.
Amor é terra firme.
Ou areia do deserto.
É base. É caminho.
É uma árvore - cresce de dentro (raiz) para fora (tronco, galhos e folhas).
É plantar e cultivar.

III.
Amor é clima ameno.
É o respirar tranquilo e o sentir da brisa suave.
É o vento gelado que toca na face e causa arrepios.
É o voo em liberdade.

IV.
Amor é fogueira em tempo frio.
É a intensidade em consumir.
Queima e ilumina.
Não pode ser contido, nem apagado.

Amor é a integração dos quatro e nunca só os fragmentos.
Ninguém vive sem.


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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sede

por Matheus Campos

Descobri tardiamente que existem versões de mim a perambular pelos seus purgatórios. Não resta muita esperança.
Por outro lado, várias outras ainda estão vivas e batalham por espaço em uma vida cada vez mais exígua.  Vivem com sofreguidão, mas vivem. Devo minha atenção a elas.
Há também algumas que são privilegiadas e só têm vontades banais. Não sofrem, não imploram por nada, não são excluídas. Aparentemente plenas, porém fracas. Qualquer coisa que não busca ou não necessita vai se enfraquecendo cada vez mais - até a existência ser somente o que já é por si só: existir. Ocupa-se o vácuo.
As minhas criaturas mais fortes são mesmo aquelas que estão vorazmente em busca de sobrevivência.
São os meus vampiros sedentos. 
E entre eles ainda há a divisão: os que degustam o sangue e os que se alimentam dele com um instinto selvagem. 
O meu sangue.
Aprendi a deixar que se alimentem do meu sangue, pois compreendo a sede. 
Compreendo também a satisfação. 
Das vezes que bebi pequenas doses quando a sede era de litros.
Do tempo que eu não me permitia me entregar à ausência e hoje, junto com a irrealidade e a imaginação, ela me consome. E vampiros diáfanos me sugam. 
É natural. 
É tão natural que tenho ojeriza aos que se opõem que eu beba dessa fonte.
Beba-me. 
Assim como não se ensina a respirar, não se ensina a beber: bebe-se. 
Só não pode ficar com sede.

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sábado, 10 de junho de 2017

Dizem

por Matheus Campos

Dizem que a essência da vida é a troca
O contínuo fluxo de dar e receber
Dar para agradar
Receber por merecer

Dizem que cada coisa tem a hora certa para acontecer
Coisas que importam
Nos momentos oportunos
Em lugares exatos
Com pessoas específicas

Dizem também por aí
Que o que nos foi dito
Não condiz
Com o que foi escrito
Nas areias do tempo
Levadas pelo vento
Da futura tempestade

Dizem que viver é espera e é ação
Há reciprocidade

Dizem que viver é vertigem e é solidão
Há insanidade

Dizem que todos sentem vontade de ir embora
Ou de jogar fora
O que não conseguem manter

Dizem que não estamos sozinhos
Somos todos vizinhos
Buscando a única motivação

Dizem, repetem e condizem
Só não me deram ainda
Uma conclusão



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domingo, 16 de abril de 2017

Iminência

O antes e depois de um abraço imaterial.

por Matheus Campos



Antes de tudo, peço perdão pelo pecado de escrever palavras melancólicas em noite de lua cheia. Juro que contemplei com sensibilidade toda a beleza da qual me foi apresentada, mas não consegui escapar do abraço de um espírito abatido, que há tempos clama por minha atenção. Tolice a minha achar que poderia fugir. Eu já compreendi que, de alguma forma, ele sempre volta. Mas às vezes eu quero acreditar na possibilidade de controlar a minha própria vida. É invariável. Ainda não me acostumei por completo com o fato de que sou filho e herdeiro de um destino irônico que também depende da minha vontade.

Aliás, confesso que essa minha resistência àquilo que já se faz presente é parte de certo fetichismo. Sinto prazer em descobrir sensações – afinal, elas só são descobertas em atos de rebeldia. É uma contínua busca de controle dos sentidos que vão além da carne, além da alma. O abraço melancólico do meu encosto não é ruim, pelo contrário. Sinto-me aquecido e acompanhado. Mas eu tento resistir. Resisto para criar uma batalha de contrários: o amargo ao doce. A solidão à companhia. O ímpeto à paciência. Etc.

Só assim as coisas poderiam caminhar. A longa e tediosa estrada bifurca-se após os conflitos.

O problema é que não tenho força o suficiente para confrontar os meus contrários perfeitos, ou seja, tudo aquilo que já é por si só: o tempo, as dúvidas, os medos, os desejos. A incerteza. Todas essas coisas constituem a forma imaterial do espírito que olha para e por mim– por vezes angelical, noutras demoníaco.

Concedi então, pela primeira vez, a permissão do abraço sem medo. Ironicamente descobri uma sensação nova também ao ser acarinhado: a iminência. Enquanto não havia batalhas, nada acontecia. Surgia então a sensação de ameaça, aproximação, urgência. Mas do quê? Não soube e não teria como saber. Eis o desespero: o logo, o quase, o não concluído.

Sei que o intuito do desconhecido é também me trazer paz. Quantas almas errantes poderiam encontrar refúgio neste abraço que deriva no vazio?

O meu sufoco surge por conta de eu ser imbuído de propósitos. Ou por pensar que sou.

Fecho os olhos e busco adentrar na realidade sonífera. O abraço se desfaz. As sensações morrem antes do amanhecer para, logo mais, dar lugar a outras.

O espírito, portanto, fica iminente ao meu renascimento.




domingo, 19 de fevereiro de 2017

Nudez

por Matheus Campos

Sinto um calor absurdo enquanto caminho e percebo que o céu está nu. Sem nuvens que indiquem posterior chuva, sem nenhuma possibilidade de sombra num campo aberto. É inegavelmente bonito, mas um pouco desagradável. A nudez do céu aberto iluminado pelos raios de sol não abre espaço para a graciosidade dos ventos mais suaves. Sinto-me exposto e meu suor me incrimina.
Abismado pela ousadia do universo de escancarar parte de sua grandeza, quis fazer o mesmo. Tive um súbito desejo de também ficar nu. Sem vergonha, sem medo da humilhação: queria me desafiar não apenas a uma quebra de tabu, mas também para compreender se a liberdade da minha natureza é comparável a do mundo que me sonda.

Quão invulgar seria se existíssemos à nossa maneira? Se não renunciássemos aos nossos demônios sem deixar de valorizar nossas virtudes?  Somos condicionados a nos esconder: cobrir para manter seguro. A falsa segurança que não possibilita a leveza da nudez diante de outros. Não somente a do corpo, mas as camadas de vestimentas que permeiam as nossas almas.

Revelar-se é um ato revolucionário.  Despir-se. A nudez da palavra dita ao invés do silêncio que grita. A nudez das sensações. A nudez dos sentimentos poeticamente estruturados.  A nudez percebida pelo olhar do outro, que é também uma revelação.

A condição humana nos torna seletivos em relação ao que revelamos. Mas é incontestável que há certo charme nisso - nos nossos mistérios tão semelhantes que, no final das contas, ninguém tem mistério nenhum.

Somos seduzidos a buscar o oculto. O prazer de revelar o que está por trás. Há dois flancos: a vestimenta do corpo e a roupa da essência, a personalidade.

O corpo exposto sem pudor é o grito de alívio após tempos de sufoco. Cada olhar é um resgate. Cada toque é uma libertação. Orgasmo é uma forma de adoração: percorrer inteiramente pela nudez do outro e percorrer por si mesmo, com prazer, é a exaltação da alma.

Já a nudez que representa a honestidade do Ser - por exemplo, pelos olhares, sorrisos, abraços, etc. -, muitas vezes é velada. O afeto verdadeiro é difícil de descobrir, mas é o que tem o maior potencial de nos despir profundamente.

Quem dera pudéssemos estar preparados para o nu em sua totalidade, no coletivo. Não estaremos. Não há a liberdade necessária. Até o céu ganha a roupagem das nuvens, das estrelas. E o meu corpo, quente, por ter o Sol como alma, é coberto.
Minha nudez esfria.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Estranhos temporários

Uma noite fria, um copo de cerveja e a urgência de uma sensação.

por Matheus Campos

Em contraponto à música alta e à euforia das pessoas, era possível me encontrar em silêncio, sentado frente à uma mesa com um copo de cerveja na mão. Bebia em goles pequenos, pois não queria me embebedar naquele momento. Meu estado ébrio costuma me confundir e já não tinha mais espaço para confusões. Não podia mais brincar com minha própria felicidade que, uma vez sentida, é posta à prova em minhas ações. Não era cabível eu passar por avaliações naquela rara condição de lucidez. Sentia-me alheio - ao ambiente, aos outros, a mim mesmo.

É precisamente nesses momentos de intranquilidade do ser que constatamos as verdades mais cruas sobre nós mesmos. Somos luz e sombra em constante evolução, mas com uma agridoce certeza de que também somos temporários. A luz se apaga, a sombra conflui com o breu. Naquele instante eu era escuridão, como a própria noite, mas brilhavam pequenas luzes em mim, como as estrelas.

Foi quando me dei conta de que eu era estranho a mim. Os outros também eram estranhos a mim. Eu os desconhecia e isso me assustava, porém, ao mesmo tempo, havia uma estranha sensação de querer conhecê-los. Ou melhor, de querer me conhecer e, consequentemente, torná-los cientes desse autoconhecimento. É um processo que interfere no próximo. Eu sou eu e sou os outros: o individual e o coletivo numa só sintonia.

No entanto, estávamos tão distantes. As coisas que nos uniam eram rasas, mas não deviam ser: os beijos, as danças, as bebidas. Escapes, fugas, quando deveria haver entregas, aprofundamento. Eu sentia urgência, ânsia, vontade: eu queria fazer parte e não me sentir a parte. Eu desejava euforicamente por algo que fosse verdadeiro. Eu queria me amar, eu queria poder amá-los.

E então, em um momento de distração atenta, eu o vi. Aquele que era o mais estranho para mim, mas sempre me atraiu. Seu nome é Paixão. Inesperadamente ele apareceu naquela festa. Deixei o copo de cerveja na mesa e me envolvi com o objetivo de chegar mais perto. De início pensei que estava sonhando, mas senti seu toque. Era real. 

Já não estava mais lúcido. Já não era mais escuridão: me tornei somente luz que brilhava com a mesma intensidade que o fogo queima. Quantas promessas cabem num abraço e num beijo despretensioso? Eu estava prestes a descobrir. 

Abracei, toquei, senti. Desequilibrei-me. Por um momento a racionalidade anterior já não fazia mais sentido. Sentir fazia sentido. E eu senti, ah, como senti! Com a máxima profundidade que se pode sentir. O engraçado é que em menos de 20 minutos Paixão já não me era estranho, mas todo o resto ainda era. Só que isso já não importava mais: nessa estranheza nos encontramos através do sentir. Os estranhos não são meus desiguais, pelo contrário: são minhas possibilidades. 

Que sejamos então. 






quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Alter ego


A construção do meu outro eu é a minha desconstrução mundana. 
O primeiro passo é sempre a dúvida.

por Matheus Campos


Incertezas  
                                  
Foi-me dito que tudo é uma grande ilusão. 
Querida amiga, por favor, não me deixe acreditar nisso. Conte-me uma de suas histórias que me ajudam a ter esperança. Apresente-me novamente à luz antes que eu obscureça no limiar da insanidade. Encontro-me num cambaleio de crenças e suposições entre a palavra espiritual e a palavra terrena. Onde você se encontra? Onde deveríamos nos encontrar? - aliás, quando foi que nos perdemos?
Não imponho minhas considerações acerca de minhas próprias dúvidas, pois não tenho convicção de nenhuma delas. Eu sei que deveria ter. A certeza deveria habitar na significação nos sentimentos ou da racionalidade - mas não há. Como hei de viver sem ela?
Por um tempo a ilógica da fé me desabituou ao pensamento. Eu era preciso naquilo que era incerto. 
Agora, portanto, penso e cambaleio. Com todas as minhas incertezas e desequilíbrios, tento procurar a ti e consequentemente a mim. 
Cadê você, querida amiga?


Desejos

O prazer não é ilusório. 
Prazer, doce e venenoso prazer. O verdadeiro sentido de tudo se encontra no sentir e não no saber. Está nas minhas satisfações, no luxo da minha carne, no pecado do meu corpo nu. Quantas sensações cabem na contemplação da beleza do outro, na suavidade do olhar, na tempestuosidade da paixão? A minha imaginação me dá a oportunidade de me tocar e fingir que você está aqui.  Dois amantes. Duas facetas apaixonadas. O prazer escorre lentamente por mim. 
Toque. Olhar. Sentir.
E então respiro do seu ar.
Bebo do elixir da sua essência.
Seu gosto é agridoce.
Confundimos um ao outro e já não sabemos quem éramos. Não sabemos quem somos. 
Cadê você, il mio amore?


Metamorfose

A arte é o máximo alcance de estar vivo.
Transfiguro-me nas minhas fantasias e as torno reais. Crio personagens em minhas poesias, em minhas canções, em minhas histórias fictícias: eles se adaptam, têm recaídas e, principalmente, se reconciliam com o meu passado. Na arte há disciplina e impulsividade. Há metamorfose.  A cada passo de dança me deparo com a morte e a conduzo para meu bel-prazer. 
Canto, danço, imagino: uma vez, duas vezes. Quantas vezes for possível. 
Aos poucos me canso. Sinto dor e ainda sim me sinto satisfeito.
Eis o poder da estética e da criatividade.
Eis a minha capacidade de me reinventar. 
Cadê você, estabilidade?



Ambição

Há uma enorme frustração nas limitações do dia a dia.
A rotina e as obrigações. Os medos. As injustiças. O que ambicionar? Até onde podemos chegar?
Até quando devo tentar me encaixar?
Estar vivo me dá a capacidade de tirar tudo o que posso do que me permeia. Tudo a meu favor. O meu poder está na minha resistência contra o que esperam de mim. A minha ambição é ser mais do que eu espero de mim.
Os meus questionamentos, os meus desejos e a minha arte se confluem.
Cadê você, foco?


Presente

Revérbero pelas possibilidades e me sinto ameaçado pelo pessimismo. Por que temos perguntas se não para serem respondidas? Por que temos desejos se não para realizá-los? Por que temos a arte se não para demonstrá-la?

As palavras são a minha catarse!

Mas... sei que ainda não estou livre, pois ainda não o encontrei.
Cadê você?

...

Quem é você?


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"Como se sua vida se emancipasse e tivesse de repente seus próprios interesses, que não correspondiam de maneira alguma aos dele. Ele se sente responsável por seu destino, mas seu destino não se sente responsável por ele."  Milan Kundera.