segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Vivenciar o outro


O fluxo:
Formam-se poças após chuvas torrenciais.
A acumulação que surge do erro, da desestrutura.
Minto: o erro não é a falta de estrutura, é o acúmulo. Mas enquanto houver chuva e superfície, haverá um charco.
Da garoa à tempestade, cada gotícula é um manifesto.
O corpo em meio ao processo é uma ode à vida.
Cada água que cai se mistura ao corpo, estabelecendo o elo da carne com a natureza.
Escorre uma lágrima, que se torna a chuva, que se torna o que sou. Eu sou a água porque sinto as gotas escorrendo em mim. Sou a chuva porque ser é sentir.
Ser é sentir.
Ser é intervir entre opostos.
Por fora, minha pele a desaguar. Por dentro, há o sangue, que também é água.
Mergulho.
Mergulho e afogo na profundidade de mim. Até já não me encontrar mais. Até eu já não saber mais o que é o fundo!
Como vou morrer pelos meus sentidos sem viver o meu fundo?
...é que no fundo já não é mais eu. Encontro o outro.
E aí passo a vivenciar o outro.
Exploro suas águas: entendo sua mente, investigo seus afetos.
Percorro na sua superfície e compreendo suas poças.
Até sentir a chuva novamente.
E encontrar seu rio.
Mergulho.
Os rios fluem para o mesmo oceano.
Ao vivenciar o outro, experimento a mim mesmo.
E então estarei completo.

domingo, 13 de agosto de 2017

A dança da noite

No silêncio da noite, eu danço.
Danço sem fazer muito barulho para não acordar meus semelhantes.
Danço ao som de harpas e flautas, para ter a certeza de que anjos observam meus movimentos.
Os primeiros passos são leves, pois a música começa com um ritmo suave - um, dois para o lado direito; três, quatro para o lado esquerdo.
Levanto meus braços e começo a rodopiar as minhas mãos, movimentando todos os dedos, sentindo toda a força de um ritual que consiste justamente na leveza.
Meus olhos estão fechados para que eu possa sentir a minha obscuridade e não o breu do entorno. Conheço e sei lidar com a intensidade do meu ser, mas não sei se estou preparado para a do mundo.
Continuo a dançar, intensifico os meus movimentos a fim de aprender mais sobre a necessidade que tenho deles. Ou compreender a necessidade que eles têm de mim, afinal, é o ritmo que me controla e nunca o contrário.
Há diferentes tipos de danças para vontades e sentimentos variados: a valsa dos românticos, a quadrilha dos divertidos, o balé dos disciplinados, etc. Somente uma delas é cabível de ser dançada na solidão - e os passos são feitos sempre à noite, a partir do medo e da necessidade.
Por alguma razão que desconheço, essa dança me escolheu e é meu destino segui-la.
A dança da noite me protege dos meus inimigos ocultos.
A dança da noite faz eu me aproximar dos meus desejos mais profundos.
A dança da noite nunca falha comigo.
E eu permanecerei dançando no escuro enquanto não encontrar a minha essência na luz do dia, pois esses rituais noturnos têm sido a minha salvação enquanto eu não encontro quem saiba acompanhar meus passos. A noite é bonita como o dia e a prefiro. Apesar de saber da importância de ambos: não é uma dicotomia.
Só tenho uma certeza: enquanto houver vida para meu ser, haverá dança para que minha existência não deixe de ser um trabalho de arte.
Para que eu seja sempre a maior expressão do que posso ser.

                        Imagem relacionada

sábado, 15 de julho de 2017

Amor em quatro elementos

I.
Amor é vital, que nem água.
Flui que nem rio.
É sereno como um mar calmo.
Mergulhe. Afogue-se.
Ou beba.
Amor é também a sensação de matar a sede.

II.
Amor é terra firme.
Ou areia do deserto.
É base. É caminho.
É uma árvore - cresce de dentro (raiz) para fora (tronco, galhos e folhas).
É plantar e cultivar.

III.
Amor é clima ameno.
É o respirar tranquilo e o sentir da brisa suave.
É o vento gelado que toca na face e causa arrepios.
É o voo em liberdade.

IV.
Amor é fogueira em tempo frio.
É a intensidade em consumir.
Queima e ilumina.
Não pode ser contido, nem apagado.

Amor é a integração dos quatro e nunca só os fragmentos.
Ninguém vive sem.


Resultado de imagem para árvore raiz


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sede

por Matheus Campos

Todo ser possui diferentes versões de si a perambular pelos seus purgatórios.
Por outro lado, várias outras permanecem vivas e batalham por espaço em uma vida cada vez mais exígua.  Vivem com sofreguidão, mas vivem. Devemos nossa atenção a elas.
Há também algumas que são privilegiadas e só têm vontades banais. Não sofrem, não imploram por nada, não são excluídas. Aparentemente plenas, porém fracas. Qualquer coisa que não busca ou não necessita vai se enfraquecendo cada vez mais - até a existência ser somente o que já é por si só: existir. Ocupa-se o vácuo.
As nossas criaturas mais fortes são mesmo aquelas que estão vorazmente em busca de sobrevivência.
São os nossos vampiros sedentos. 
E entre eles ainda há a divisão: os que degustam o sangue e os que se alimentam dele com um instinto selvagem. 
O próprio sangue.
Aprendi a deixar que se alimentem do meu sangue, pois compreendo a sede. 
Compreendo também a satisfação. 
Das vezes que bebi doses quando a sede era de litros.
Do tempo que eu não me permitia me entregar à ausência e hoje, junto com a fantasia e a imaginação, ela me consome. E vampiros diáfanos me sugam. 
É natural. 
É tão natural que me rebelo quando tentam proibir que eu beba dessa fonte.
Sirva-se. 
Assim como não se ensina a respirar, não se ensina a beber: bebe-se. 
Só não pode ficar com sede.

                       Resultado de imagem para vampiro sangue


domingo, 16 de abril de 2017

Iminência

O antes e depois de um abraço imaterial.

por Matheus Campos



Antes de tudo, peço perdão pelo pecado de escrever palavras melancólicas em noite de lua cheia. Juro que contemplei com sensibilidade toda a beleza da qual me foi apresentada, mas não consegui escapar do abraço de um espírito abatido, que há tempos clama por minha atenção. Tolice a minha achar que poderia fugir. Eu já compreendi que, de alguma forma, ele sempre volta. Mas às vezes eu quero acreditar na possibilidade de controlar a minha própria vida. É invariável. Ainda não me acostumei por completo com o fato de que sou filho e herdeiro de um destino irônico que também depende da minha vontade.

Aliás, confesso que essa minha resistência àquilo que já se faz presente é parte de certo fetichismo. Sinto prazer em descobrir sensações – afinal, elas só são descobertas em atos de rebeldia. É uma contínua busca de controle dos sentidos que vão além da carne, além da alma. O abraço melancólico do meu encosto não é ruim, pelo contrário. Sinto-me aquecido e acompanhado. Mas eu tento resistir. Resisto para criar uma batalha de contrários: o amargo ao doce. A solidão à companhia. O ímpeto à paciência. Etc.

Só assim as coisas poderiam caminhar. A longa e tediosa estrada bifurca-se após os conflitos.

O problema é que não tenho força o suficiente para confrontar os meus contrários perfeitos, ou seja, tudo aquilo que já é por si só: o tempo, as dúvidas, os medos, os desejos. A incerteza. Todas essas coisas constituem a forma imaterial do espírito que olha para e por mim– por vezes angelical, noutras demoníaco.

Concedi então, pela primeira vez, a permissão do abraço sem medo. Ironicamente descobri uma sensação nova também ao ser acarinhado: a iminência. Enquanto não havia batalhas, nada acontecia. Surgia então a sensação de ameaça, aproximação, urgência. Mas do quê? Não soube e não teria como saber. Eis o desespero: o logo, o quase, o não concluído.

Sei que o intuito do desconhecido é também me trazer paz. Quantas almas errantes poderiam encontrar refúgio neste abraço que deriva no vazio?

O meu sufoco surge por conta de eu ser imbuído de propósitos. Ou por pensar que sou.

Fecho os olhos e busco adentrar na realidade sonífera. O abraço se desfaz. As sensações morrem antes do amanhecer para, logo mais, dar lugar a outras.

O espírito, portanto, fica iminente ao meu renascimento.




domingo, 19 de fevereiro de 2017

Nudez

por Matheus Campos

Sinto um calor absurdo enquanto caminho e percebo que o céu está nu. Sem nuvens que indiquem posterior chuva, sem nenhuma possibilidade de sombra num campo aberto. É inegavelmente bonito, mas um pouco desagradável. A nudez do céu aberto iluminado pelos raios de sol não abre espaço para a graciosidade dos ventos mais suaves. Sinto-me exposto e meu suor me incrimina.
Abismado pela ousadia do universo de escancarar parte de sua grandeza, quis fazer o mesmo. Tive um súbito desejo de também ficar nu. Sem vergonha, sem medo da humilhação: queria me desafiar não apenas a uma quebra de tabu, mas também para compreender se a liberdade da minha natureza é comparável a do mundo que me sonda.

Quão invulgar seria se existíssemos à nossa maneira? Se não renunciássemos aos nossos demônios sem deixar de valorizar nossas virtudes?  Somos condicionados a nos esconder: cobrir para manter seguro. A falsa segurança que não possibilita a leveza da nudez diante de outros. Não somente a do corpo, mas as camadas de vestimentas que permeiam as nossas almas.

Revelar-se é um ato revolucionário.  Despir-se. A nudez da palavra dita ao invés do silêncio que grita. A nudez das sensações. A nudez dos sentimentos poeticamente estruturados.  A nudez percebida pelo olhar do outro, que é também uma revelação.

A condição humana nos torna seletivos em relação ao que revelamos. Mas é incontestável que há certo charme nisso - nos nossos mistérios tão semelhantes que, no final das contas, ninguém tem mistério nenhum.

Somos seduzidos a buscar o oculto. O prazer de revelar o que está por trás. Há dois flancos: a vestimenta do corpo e a roupa da essência, a personalidade.

O corpo exposto sem pudor é o grito de alívio após tempos de sufoco. Cada olhar é um resgate. Cada toque é uma libertação. Orgasmo é uma forma de adoração: percorrer inteiramente pela nudez do outro e percorrer por si mesmo, com prazer, é a exaltação da alma.

Já a nudez que representa a honestidade do Ser - por exemplo, pelos olhares, sorrisos, abraços, etc. -, muitas vezes é velada. O afeto verdadeiro é difícil de descobrir, mas é o que tem o maior potencial de nos despir profundamente.

Quem dera pudéssemos estar preparados para o nu em sua totalidade, no coletivo. Não estaremos. Não há a liberdade necessária. Até o céu ganha a roupagem das nuvens, das estrelas. E o meu corpo, quente, por ter o Sol como alma, é coberto.
Minha nudez esfria.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Alter ego


A construção do meu outro eu é a minha desconstrução mundana. 
O primeiro passo é sempre a dúvida.

por Matheus Campos


Incertezas  
                                  
Foi-me dito que tudo é uma grande ilusão. 
Querida amiga, por favor, não me deixe acreditar nisso. Conte-me uma de suas histórias que me ajudam a ter esperança. Apresente-me novamente à luz antes que eu obscureça no limiar da insanidade. Encontro-me num cambaleio de crenças e suposições entre a palavra espiritual e a palavra terrena. Onde você se encontra? Onde deveríamos nos encontrar? - aliás, quando foi que nos perdemos?
Não imponho minhas considerações acerca de minhas próprias dúvidas, pois não tenho convicção de nenhuma delas. Eu sei que deveria ter. A certeza deveria habitar na significação nos sentimentos ou da racionalidade - mas não há. Como hei de viver sem ela?
Por um tempo a ilógica da fé me desabituou ao pensamento. Eu era preciso naquilo que era incerto. 
Agora, portanto, penso e cambaleio. Com todas as minhas incertezas e desequilíbrios, tento procurar a ti e consequentemente a mim. 
Cadê você, querida amiga?


Desejos

O prazer não é ilusório. 
Prazer, doce e venenoso prazer. O verdadeiro sentido de tudo se encontra no sentir e não no saber. Está nas minhas satisfações, no luxo da minha carne, no pecado do meu corpo nu. Quantas sensações cabem na contemplação da beleza do outro, na suavidade do olhar, na tempestuosidade da paixão? A minha imaginação me dá a oportunidade de me tocar e fingir que você está aqui.  Dois amantes. Duas facetas apaixonadas. O prazer escorre lentamente por mim. 
Toque. Olhar. Sentir.
E então respiro do seu ar.
Bebo do elixir da sua essência.
Seu gosto é agridoce.
Confundimos um ao outro e já não sabemos quem éramos. Não sabemos quem somos. 
Cadê você, il mio amore?


Metamorfose

A arte é o máximo alcance de estar vivo.
Transfiguro-me nas minhas fantasias e as torno reais. Crio personagens em minhas poesias, em minhas canções, em minhas histórias fictícias: eles se adaptam, têm recaídas e, principalmente, se reconciliam com o meu passado. Na arte há disciplina e impulsividade. Há metamorfose.  A cada passo de dança me deparo com a morte e a conduzo para meu bel-prazer. 
Canto, danço, imagino: uma vez, duas vezes. Quantas vezes for possível. 
Aos poucos me canso. Sinto dor e ainda sim me sinto satisfeito.
Eis o poder da estética e da criatividade.
Eis a minha capacidade de me reinventar. 
Cadê você, estabilidade?



Ambição

Há uma enorme frustração nas limitações do dia a dia.
A rotina e as obrigações. Os medos. As injustiças. O que ambicionar? Até onde podemos chegar?
Até quando devo tentar me encaixar?
Estar vivo me dá a capacidade de tirar tudo o que posso do que me permeia. Tudo a meu favor. O meu poder está na minha resistência contra o que esperam de mim. A minha ambição é ser mais do que eu espero de mim.
Os meus questionamentos, os meus desejos e a minha arte se confluem.
Cadê você, foco?


Presente

Revérbero pelas possibilidades e me sinto ameaçado pelo pessimismo. Por que temos perguntas se não para serem respondidas? Por que temos desejos se não para realizá-los? Por que temos a arte se não para demonstrá-la?

As palavras são a minha catarse!

Mas... sei que ainda não estou livre, pois ainda não o encontrei.
Cadê você?

...

Quem é você?


Resultado de imagem para nude male art


"Como se sua vida se emancipasse e tivesse de repente seus próprios interesses, que não correspondiam de maneira alguma aos dele. Ele se sente responsável por seu destino, mas seu destino não se sente responsável por ele."  Milan Kundera.