sexta-feira, 6 de março de 2015

A complexa arte de viver



por Matheus Campos

Foi em uma manhã tranquila, sem o ardor das expectativas de ter um dia esplêndido, que recebi a dádiva de uma importante descoberta de vida.
O sol acabara de nascer, e eu andava pela praia de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo. Buscava alguma coisa simples naquela caminhada, mas não sabia exatamente o quê inicialmente. Só depois fui entender.
Em um momento de cansaço, sentei-me à beira do mar e pude sentir a suave brisa me tocando. Nesga de areia entre minhas mãos esvaíam pelos meus dedos e o vento levava embora cada grão. Por um instante, compreendi que o meu estado de espírito estava em sintonia com a leveza do ar. Era um processo de readaptação. O sagrado silêncio predominante me permitia escutar a música da natureza – a poesia de viver, a melodia do sentir.
Observava de longe marolas tornando-se ondas tempestuosas; a brisa às vezes tornava-se uma forte ventania. Comparei-me a essa natureza inconstante: assim como ela, sou efêmero e imprevisível.
Quem dera apenas se eu compreendesse os mistérios do oceano tal qual tão profundo quanto minha alma... mas há a minha pequenez humana diante de tamanha imensidão. Ou talvez não haja mistérios a serem desvendados. Afinal, há tempos aprendi que o segredo de viver é não ter segredos nenhum.
E há somente duas coisas nesse ato explícito de viver que me impressionam na mesma medida que me assombram: o ser humano e a arte. Hoje, o que considero mais belo é a ligação inerente entre elas, pois parte da importante descoberta que tive naquele dia foi justamente a respeito disso. Por um tempo pensei em guardar o que descobri como segredo, mas decidi que vou contar. Singelamente vou contar.
 Claro que há um tom muito subjetivo na minha seguinte afirmação, mas o meu ponto de vista me permite ver isso de uma maneira universal:
Todos nós somos artistas.
Essa percepção se torna mais clara quando temos a certeza de que viver é uma simples arte. Assim como amar – a mais primorosa e complexa manifestação artística que existe.
As manifestações são ligadas a atividades de ordem estética, conduzida por nós – seres humanos e artistas – a partir de nossas percepções, emoções e ideias únicas que pretendem atingir, de maneira sensível e/ou tangível, os nossos espectadores. Tudo o que fazemos são obras de arte com diferentes significados.
Foi justamente o meu contato singular com a natureza naquela manhã que me fez perceber isso. O modo como sinto, vejo, caminho... A minha humanidade, interligada aos outros, é bela. Respiro a arte.
Encanto-me veemente com essa beleza. Aliás, uma das coisas que mais me agrada em qualquer atividade artística é quando há paixão imposta nela.  Por natureza, considero-me extremamente lírico e sentimental. Portanto, a sensibilidade do meu ser faz com que eu tenha o dom dos poetas, dos filósofos e dos romancistas. Consigo enxergar literatura em cada situação nova que me acontece. Faço pinturas imaginárias em minha mente, e geralmente o que me permeia é abstrato.
Poético como sou, é claro que tenho fascínio por romance e suas vertentes. Tenho gosto por expressões do tipo em músicas, livros, filmes e principalmente no dia-a-dia. Possuo meu próprio significado para o amor, e posso afirmar que só me conquista aquele que é profundo. Intenso. Não gosto de pessoas e sentimentos rasos - sempre mergulho fundo no misterioso oceano dos meus sentidos. Embora eu saiba que corro o risco de me afogar.
Ao falar de amor, arte e literatura, sempre me vem a mente o livro ‘Coiote’, do mestre Roberto Freire. Conheci o título através da leitura de uma excelente crônica, escrita por uma amiga - sensível e fascinada pelo amor como eu.
O livro tornou-se o meu favorito por abordar, de maneira insana e um pouco utópica, tudo o que penso e sinto a respeito do amor, do prazer e da liberdade. Sem contar o delicioso tom anarquista presente nele e a loucura dos personagens (deve ser realmente lindo falar com duendes e fazer sexo com a natureza). Em suma, instiga as nossas percepções sobre as perplexidades das relações humanas.
Só pude comprá-lo ao requisitar em um sebo de Santo André, pois é muito difícil de encontrar à venda. Como todos os livros que compro em sebos, este veio com características próprias marcadas pelo antigo dono. Porém, meu exemplar de ‘Coiote’ tinha uma particularidade em especial: em uma das páginas tinha um pequeno papel amarelo com as seguintes palavras:
Procurei Deus e não o encontrei;
Procurei a mim e não me achei;
Procurei o próximo e encontrei os três;
Nenhum ser humano é autossuficiente, todos nós precisamos dos outros para sermos nós mesmos.”

Achei curioso e de início pensei que tinha algo a ver com o livro, mas era apenas um papel aleatório que me fez refletir. Por instinto, acabei lendo parte do conteúdo que tinha nas páginas em que se encontrava o papel. Não vou revelar muito do livro, mas em algum ponto tinha o seguinte trecho, do qual contrastava com as palavras transcritas no papel amarelo:

"Cada pessoa precisa encontrar toda a capacidade de viver em si mesma."

É até irônico ver as diferenças entre as citações que se apresentaram a mim naquele instante. Conduziu-me a uma estranha crise de existencialismo que durou uns 20 minutos.
Concluí que talvez a verdade se aproxime no equilíbrio entre ambas as afirmações.  Como já disse, viver é uma arte e os seres humanos são artistas – e isso muitas vezes pode ser demasiadamente perigoso, tanto individualmente quanto no coletivo.
Afinal, humanizar é relacionar-se. Abrir-se ao outro.
Eu, particularmente, tenho certa dificuldade com relacionamentos em geral justamente por conta do meu medo do outro e, principalmente, do assombro de mim mesmo. Confiar plenamente é primordial e, ao mesmo tempo, praticamente impossível.
Os poucos romances que vivi, por exemplo, ressaltou esse meu medo. Já tive casos em que respondi um ‘Eu te amo’ com ‘Obrigado’. Chato, não?! Ou apenas sincero demais. Palavras e sentimentos são importantes pra mim.
Tanto que em outra experiência, já até cometi a loucura de escrever uma carta para conhecer alguém. Às vezes considero tal ato meio boçal e quase me arrependo do que fiz. Mas é como já disse Fernando Pessoa em um dos meus poemas favoritos: “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas."
Desdobraram-se momentos entre eu e a pessoa da qual entreguei a carta. O nosso caso funcionou até certo ponto, mas surgiram as limitações naturais que acarretaram à quebra do contrato – ou aquilo que chamam de namoro.  Mas essa é outra história...
Não há vergonha, nem culpa, pois sei que o risco é sempre parte do destino.
O prazer do sentir e se deixar levar por aquilo que te impulsa a essa sensação é um dos pontos que o livro ‘Coiote’, lido há pouco tempo, me causou mais impacto. Levou-me a um raciocínio: Apaixonar-se pode ter a ver com esquecer. Sim, exatamente isso: esquecer que somos humanos e entregar-se ao sentimento puro, ao desejo, à leveza. Sem a neurose, amar é como flutuar no presente.
E a vida é feita de momentos.
Acredito que cada um deve descobrir o seu próprio modo de amar e de sentir prazer.
Claro que nesse processo haverá dor, mas é uma dor que vale a pena.
A descoberta de si está na deliciosa dor de viver.
De fazer arte.