segunda-feira, 27 de julho de 2015

Resenha: Uma Crença Silenciosa em Anjos (Livro)

Uma ode à melancolia

Autor faz uma alegoria ao sofrimento humano em obra de suspense

Por Matheus Campos

“Escrever é um exorcismo do medo e do ódio; pode ser uma forma de superar o preconceito e a dor. Se puder escrever, você pelo menos tem uma chance de se expressar... pode expor seus pensamentos ao mundo, e mesmo se ninguém de fato os ler ou os compreender, eles já não estarão presos dentro de você.”  p.79

A melancolia é, provavelmente, a maior aliada de um escritor. Em uma composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, eles poetizam "Assim como uma nuvem só acontece se chover; Assim como o poeta só é grande se sofrer" – eis uma verdade incontestável.
"Uma crença silenciosa em anjos" é uma obra classificada como um suspense policial e, de fato, é um bom livro inserido no contexto desse gênero. Mas o que realmente chama atenção nele são as reflexões que o compõem. Palavras sobre perda culpa, medo e injustiça, das quais são marcadas nos olhos dos leitores e sentidas com a mesma angústia que o autor passou. Não, não é uma obra autobiográfica, mas, no desenrolar das páginas, de acordo com o tom poético e profundo que acompanha a história do personagem central, só poderia ser escrita por alguém que realmente entende sobre esses detalhes da vida. E as experiências reais do autor inglês Roger Jon Ellory comprovam isso.

Ficção e realidade

Ellory, desde criança, passou por situações das quais levaram sua ingenuidade inerente da infância ruir de maneira precoce. A morte foi um dos fatores presentes: a mãe morreu de pneumonia quando ele tinha apenas 7 anos. Além disso, ele nunca conheceu seu pai e, conseguinte à perda da mãe, logo perdeu os avós também, o que levou a ser criado em um internato até os 16 anos – onde desenvolveu seu amor pela leitura, especialmente por autores como Truman Capote, Charles Dickens e Agatha Christie.
Há uma clara analogia entre esses fatos da biografia do autor e os que acontecem na vida de Joseph Vaugham, protagonista de “Uma crença silenciosa em anjos”, que foi seu quinto livro, publicado em 2005 (Ellory, nascido em 1965, só começou a escrever livros em 1997 - todos no gênero de suspense e relativamente bem avaliados pela crítica). Na história fictícia, o garoto de 12 anos vê seu pai falecer e passa a viver apenas com a mãe. Por ser religioso e ler a bíblia, tem um grande interesse pelos anjos descritos e, por isso, acreditou que após a morte seu pai se tornaria um.
 Sempre muito inteligente e leitor assíduo, sonha em se tornar um escritor bem sucedido. É muito influenciado pela sua professora, a Srta. Alexandra Webber, no âmbito educacional e pessoal, pois, além de ser uma amiga conselheira, ela reconhece seus talentos e é a que mais o incentiva para que ele, ainda pré-adolescente nessa parte, não pare de escrever.
Em primeira pessoa, a narrativa do livro alterna os capítulos entre dois períodos da vida do protagonista: a do passado mais distante, que se desenrola linearmente, e mostra os eventos que vão culminar à cena representativa dos capítulos nos quais Joseph, já um homem adulto, está num quarto de hotel em que acabara de ocorrer uma troca de tiros, na cidade de Nova York. Um corpo ensanguentado de outro homem também está presente no local. Nesse aspecto, as reflexões do personagem de acordo com a situação descrita remetem a um sentimento de culpa e, ao mesmo tempo, resignação pelo que sua vida representou até aquele momento.
No outro contexto já citado do Joseph de 12 anos, a ambientação começa no ano de 1939, em Augusta Falls, um município rural na Geórgia, sul dos Estados Unidos. Para criar uma interligação com a realidade da época, o autor faz um paralelo dos acontecimentos regionais da ficção com os eventos da Segunda Guerra Mundial, o que contextualiza os personagens aos assuntos ligados aos impactos políticos, sociais e econômicos da guerra por meio de diálogos dos quais envolvem as notícias que chegavam ao local.
O ponto principal da história do livro inicia quando uma de suas colegas de escola é assassinada brutalmente. A partir daí, começa uma série de crimes que envolvem meninas estupradas e mortas por um suposto serial killer - o perigo e o mistério da situação se tornam fatores de assombro na vida das pessoas daquela cidade por anos. E isso vai afetar diretamente a existência de Joseph e de entes queridos, o que causa profundos impactos psicológicos nele, moldando seu caráter e personalidade.
Alguns dos estupros são descritos de forma literal e seca, o que causa certo desconforto e angústia ao ler. Essa característica da escrita de Ellory mexe essencialmente no emocional do leitor. A ânsia por justiça e pela revelação do assassino nos envolve tão veemente quanto ao Joseph.
Na história, as consequências dos assassinatos revelam a natural desconfiança e tendência à atitude injusta dos seres humanos em comunidades fechadas, em que predomina a intolerância à diferença.
Apesar de ter um desenvolvimento lento e repetitivo (a sensação é a de que o livro poderia ter umas cem páginas a menos), a leitura prende não só pelas suposições e reviravoltas, mas principalmente pelo teor poético que expõe a extrema sensibilidade do autor quanto às questões humanas. Justamente por isso, não há muita descrição de cenário ou características mais objetivas, pois o enfoque é mais introspectivo pela ótica do personagem principal.
Aliás, ele carrega toda a carga dramática do enredo. O autor propositalmente escreveu uma história em que mostra como alguém pode sobreviver às piores dores - físicas e sentimentais - e, mesmo assim, ainda prosseguir.

“Não sei como alguém pode suportar perder tanta gente e ainda acreditar na bondade fundamental do ser humano.” p. 432

Joseph observa e passa por tantas desgraças durante a narrativa que chega um momento no qual podemos pensar que nada de bom vai durar para ele. Isso faz com que o livro seja excessivamente triste e pesado.
Mas, ironicamente, esses fatores não tiram a beleza da obra. O argumento principal do livro como um todo é, justamente, a compreensão de que não há sentido na vida sem as dores, a angústia, o sofrimento. É aquele clichê de que não conhecemos o valor da luz sem antes passar pela escuridão. Por esses aspectos, esse livro se consolida como uma ode à melancolia.

“Talvez alguns de nós voltem... talvez alguns de nós tenham aprendido o bastante para fazer uma diferença, para influenciar as situações para melhor... para ficar observando... para esperar a hora certa e depois agir. E apesar das aparências, apesar de todas as indicações em contrário, apesar da reserva por medo do que os outros pudessem pensar, eu ainda sentia que todos nós tínhamos aquela crença silenciosa...” p.371

Vejo esse livro como uma homenagem àqueles que creem em anjos - não necessariamente o ser iluminado com asas de ave, mas sua simbologia: o anjo como uma forma imaterial da esperança. O anjo como o ícone da superação.
Por todas às vezes que cremos em anjos - silenciosamente ou de maneira gritante, tanto faz -, essa obra merece ser lida.



Ficha técnica

ELLORY, R. J. Uma crença silenciosa em anjos.

Título original: A quiet belief in Angels
Nº de páginas: 446
Editora: Intrínseca

Preço: R$ 39,90

Leve-me às estrelas

por Matheus Campos

            O príncipe acordou no meio da noite com um súbito desejo de ir às estrelas.
Estava deitado e nu debaixo dos galhos de uma grande árvore com raízes antigas. Nu, pois queria o contato cru com a natureza guiado pelo intuito de sê-la, pois ele era.
Ele olhava para as estrelas com um interesse genuíno de conhecê-las e, quem sabe, falar com elas. Achava que talvez pudessem ser intercedentes de um Deus do qual tanto procurava. Aliás, ele mantivera uma relação com esse Deus por muito tempo; o contato entre eles era por meio de cartas - sim, o príncipe frequentemente escrevia cartas a Ele (ou ao universo, ou à natureza, ou ao nada: a definição não cabe a mim).
Ele fazia isso com uma convicção estranha, pois foi lhe ensinado há muito tempo que Deus é onipresente. Mas, ainda sim, o menino tinha a necessidade de exorcizar seus pensamentos, súplicas, agradecimentos e temores por meio da escrita. Ele sempre esperava por uma forte ventania como um sinal do céu. A força do ar era, por falta de palavra melhor, o correio, e o rumo dos ventos levaria suas palavras no papel a um suposto poder superior.
 Eis uma certeza inabalável: receberia uma resposta, cedo ou tarde, com um porém: não em palavras escritas.
Mas, dessa vez, observando as estrelas, o príncipe já não tinha vontade de escrever. Queria mais. O desejo era de estar cara a cara com o seu criador. Desejava chegar aos céus por si só, pois estava cansado do mundo terreno.

Caros leitores, agora cheguei a um ponto da história em que não posso mais narrar de maneira onisciente. A partir de então, para que vós entendais melhor os pensamentos dele, serei o príncipe. Permita-me infringir o próprio espaço-tempo.

Não, por favor, não tente me adequar. Não espere nada de mim: deixe-me ser.  Quero ser levado como se eu fosse o próprio vento que embala minhas palavras ao divino. Estou cansado. Oh sim, estou realmente cansado.
Será que perdi a fé nos homens? Fatigo-me da gravidade e de tudo que é real. Quero o não-visto. Desejo a irrealidade que de tão profunda se torna uma nova realidade.
Disse isso aos poucos amigos que confio e já me arrependo das palavras ditas, mais até do que aquilo que nunca foi dito. Mal finalizei e pela reação não desejada tentei me justificar: não, não é bem assim, me deixa explicar melhor. Pra quê? Quero a compreensão ou a aceitação? Não quero.
Quantas vezes desisti de partes de mim por outrem?! Quantas vezes fugi de olhares e palavras, não por covardia, mas para que no desencontro eu busque a mim novamente e, consequentemente, a eles?!
Mas, apesar de tudo, há o bom: zombo deles por serem céticos. A arrogância daqueles que não acreditam em almas por não terem encontrado as suas.
Sendo assim, torno-me arrogante também? Talvez sim. Sei que não sou comum - quem dera eu fosse.  Que Deus me perdoe, mas há momentos em que eu preferiria ter nascido um comerciante pobre a um príncipe cheio de luxos.
Ainda há o fato de que preciso socializar. Relacionar-me aos outros.
Mas é justo que isso, ao invés de complementar, subtraia um pouco da minha humanidade?
Por considerar certos fatores insípidos em minha vida, já não me quis. Por isso, procurei alguém para dar o que vivi e, por puro egoísmo humano, quis o que o outro vivia também.
Louco, vá se tratar, eles diziam. Eu nunca fui louco: sou único. Mas não digo que sou original. Sou demais a cópia da cópia para me tratar com exclusividade. Em suma, sou o sangue, a carne, e, também, as emoções, as chagas, os princípios.
É-me aprazível ser.
Percebo a compreensão que adquiri. É ignóbil adentrar na intimidade de alguém e julgá-la. Não há a resolução no alheio, somente em nós mesmos, pois o redemoinho dos sentimentos de cada um é perigoso. Não queira o todo separando fragmentos. Não queira o melhor sem o pior. Não queira a compreensão plena sem antes passar pela confusão.
Sei disso porque já lidei com a grosseria e fui ferido, assim como lidei com a sensibilidade e também feri.
Já amei ao ponto de querer possuir. Já odiei ao ponto de querer dizimar. Qual desses é mesmo o amor ou o ódio? Ou nenhum dos dois? Os dois. Inexplicavelmente ambos se alimentam da mesma raiz.
Essas palavras talvez já sejam exploradas nas mentes de muitos e entendidas nos corações de poucos. Clichês, como a rotina, as escolhas, a vida em si. Até o mais complexo é simples, porque até o diferente se torna igual.
Não sou nem quero ser sozinho. Apesar de ser amigo do silêncio, temo imensuravelmente a solidão. Eu não preciso deles e, arduamente, preciso.
Mas agora, estou cansado.
Entrego-me, portanto, ao destino de seguir às estrelas.
Agradeço antes aos céus por todo o sofrimento.
Sou grato pelas desuniões, desamores e até pelos fatídicos encontros.
A felicidade da luz só foi encontrada ao passar pelo túnel escuro de meus dissabores.
Sim, agora eu posso ver com clareza. Mais do que isso: estou sendo.
E, então, queimo com toda a força. E brilho.
Brilho cada vez mais.
Já não preciso mais me encontrar com as estrelas, pois me tornei uma.
Encontrei Deus em mim.

 


segunda-feira, 13 de julho de 2015

O artista

por Matheus Campos

Rufem os tambores

- Senhoras e senhores,
Apresento-lhes com muito orgulho (e certo pesar) o Artista!
Por favor, aplausos!

...

Silêncio.

Nota intermediária do narrador: apesar de ser denominado como Artista, ele não domina necessariamente nenhuma arte. Não sabe pintar, poetizar, cantar e nem mesmo dançar. Ele está paralisado e seu único talento é sorrir de vez em quando.
 Ora, mas o que então faz dele um artista?  - questão levantada pelo leitor.
Resposta do autor: Ora, o que então faz de você um ser humano?

Voltemos.
Após a apresentação, o Artista se prostra timidamente no palco de madeira carregando um balde cheio de tinta. Não consegue enxergar o público, pois o negro sonda sua visão – o que não impede de fazer o seu show, que na verdade não é espetáculo nenhum.

Primeiro ato: o balde é posto no palco. Sua mão direita delicada e de dedos magros é afundada na tinta.  Ao sair de lá, ela está branca e, por conseguinte, ele passa a pintar sua própria face, sem nenhuma preocupação com estética ou sentido.

Segundo ato: O discurso.
- Dizem que o branco é a paz, o vermelho é a paixão, o preto é o luto, e o verde a esperança; E eu, o que sou? Pinto-me de branco, pois quero a paz - apesar de que minha visão está de luto porque não enxergo mais nada. Sim, afirmo que é por pura opção e, sendo assim, pinto meus olhos também. Não possuo verde em meu corpo, pois o que mais posso esperar? O que me resta? Seguir pintando meu corpo também de branco. Ah, não posso esquecer-me do meu coração que é vermelho, será que consigo pintá-lo também? A paixão é violenta e deixa todo o resto em guerra. Já não a quero mais.

Último ato: o Artista pega o balde e jorra toda a tinta por cima de sua cabeça

Não aguentou: morreu o coitado.
O suave toque da morte pelas cores.

...

Silêncio.

Eis que acontece um milagre: a tinta em seu corpo vai mudando de cor e o falecido, aos poucos, dá espaço à criação de um arco-íris: sem nem ao menos ter tido chuva.
O público, exasperado, aplaude.
O Artista havia dominado sua primeira e última arte – e, sem dúvidas a mais complexa e primorosa:
A capacidade de compreender a dor de dar à vida.
A insanidade pela sanidade.
O último pelo primeiro.
O oposto pelo semelhante.
Continuar o show mesmo com o silêncio.
E, então, entregou-se ao fim para um recomeço.