terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Estranhos temporários

Uma noite fria, um copo de cerveja e a urgência de uma sensação.

por Matheus Campos

Em contraponto à música alta e à euforia das pessoas, era possível me encontrar em silêncio, sentado frente à uma mesa com um copo de cerveja na mão. Bebia em goles pequenos, pois não queria me embebedar naquele momento. Meu estado ébrio costuma me confundir e já não tinha mais espaço para confusões. Não podia mais brincar com minha própria felicidade que, uma vez sentida, é posta à prova em minhas ações. Não era cabível eu passar por avaliações naquela rara condição de lucidez. Sentia-me alheio - ao ambiente, aos outros, a mim mesmo.

É precisamente nesses momentos de intranquilidade do ser que constatamos as verdades mais cruas sobre nós mesmos. Somos luz e sombra em constante evolução, mas com uma agridoce certeza de que também somos temporários. A luz se apaga, a sombra conflui com o breu. Naquele instante eu era escuridão, como a própria noite, mas brilhavam pequenas luzes em mim, como as estrelas.

Foi quando me dei conta de que eu era estranho a mim. Os outros também eram estranhos a mim. Eu os desconhecia e isso me assustava, porém, ao mesmo tempo, havia uma estranha sensação de querer conhecê-los. Ou melhor, de querer me conhecer e, consequentemente, torná-los cientes desse autoconhecimento. É um processo que interfere no próximo. Eu sou eu e sou os outros: o individual e o coletivo numa só sintonia.

No entanto, estávamos tão distantes. As coisas que nos uniam eram rasas, mas não deviam ser: os beijos, as danças, as bebidas. Escapes, fugas, quando deveria haver entregas, aprofundamento. Eu sentia urgência, ânsia, vontade: eu queria fazer parte e não me sentir a parte. Eu desejava euforicamente por algo que fosse verdadeiro. Eu queria me amar, eu queria poder amá-los.

E então, em um momento de distração atenta, eu o vi. Aquele que era o mais estranho para mim, mas sempre me atraiu. Seu nome é Paixão. Inesperadamente ele apareceu naquela festa. Deixei o copo de cerveja na mesa e me envolvi com o objetivo de chegar mais perto. De início pensei que estava sonhando, mas senti seu toque. Era real. 

Já não estava mais lúcido. Já não era mais escuridão: me tornei somente luz que brilhava com a mesma intensidade que o fogo queima. Quantas promessas cabem num abraço e num beijo despretensioso? Eu estava prestes a descobrir. 

Abracei, toquei, senti. Desequilibrei-me. Por um momento a racionalidade anterior já não fazia mais sentido. Sentir fazia sentido. E eu senti, ah, como senti! Com a máxima profundidade que se pode sentir. O engraçado é que em menos de 20 minutos Paixão já não me era estranho, mas todo o resto ainda era. Só que isso já não importava mais: nessa estranheza nos encontramos através do sentir. Os estranhos não são meus desiguais, pelo contrário: são minhas possibilidades. 

Que sejamos então. 






quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O perigo da imprecisão em tempos de pós-verdades

Por Matheus Campos

Na sociedade contemporânea, é evidente que há uma facilidade de acesso às informações e, consequentemente, de opiniões acerca delas. Com o advento das mídias digitais e das redes sociais, se estabelece um terreno de propagação de conhecimentos que por vezes impressiona, noutras assusta, pois na medida em que é um novo espaço para se informar e ter voz, é também um recinto que engloba falácias e sensacionalismos. Esse fenômeno, ainda recente e passível de análises, afeta vários flancos: políticos, jurídicos, econômicos, e até mesmo em vidas pessoais. Mas o principal a se analisar são justamente as conseqüências numa área que é diretamente ligada ao ato de informar e opinar: a do jornalismo.

Dentro desse contexto da comunicação social, existem as vertentes daquilo que é informativo e do que é opinativo, mas com um porém: ambos necessitam de precisão e fatos objetivos para se concretizarem de maneira genuína. Erros históricos nascem da imprecisão. Profissionais como os repórteres têm o dever de serem contundentes e não emitirem juízos, pois qualquer mínimo erro ao retratar um cenário, uma história, ocasiona a falha daquele que vai expor a opinião e, consequentemente, a diversos setores da sociedade, afinal, quando um erra, a cadeia toda pode falhar: o advogado, o sociólogo, o antropólogo e mais para frente o historiador.

Com a brecha da internet de haver mais possibilidades no processo de se informar e reproduzir a informação, é necessário o dobro da preocupação na busca de fontes e na exigência da precisão ao apurar as notícias. A história sempre foi inicialmente escrita pelos veículos de comunicação e agora existem novas formas de abordá-la. Isso faz com que seja aberto um cenário de muitas incertezas e incognoscibilidades quanto ao futuro – tanto na área do jornalismo como na vida em si.

Recentemente, o Dicionário Oxford definiu “Pós-verdade” como a palavra do ano. O termo se refere a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais. Essa definição se deu principalmente por conta do referendo britânico sobre a União Europeia e nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Faz sentido trazer à tona esse conceito, pois isso se agrava precisamente de acordo com esse cenário agridoce da emissão de informações e opiniões nas redes digitais.

Para começar, os autores das notícias não possuem emancipação total ao escrever e apurar, pois a liberdade absoluta pertence ao dono do veículo onde se trabalha – no Brasil ou em qualquer lugar do mundo e de qualquer ideologia. Ao ligar esse fato ao significado da palavra pós-verdade na sociedade civil, é notório que se amplia o espaço às percepções corporativas e políticas pelos meios de comunicação. Portanto, é muito complicada e sutil a distinção entre ser um agente de opinião ou simplesmente um porta-voz de autoridade. E, principalmente, entre um verdadeiro agente de informação ou mais um enredado nas armadilhas e segmentações ocasionadas pelas redes e pelo contágio das pós-verdades.





quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Alter ego


A construção do meu outro eu é a minha desconstrução mundana. 
O primeiro passo é sempre a dúvida.

por Matheus Campos


Incertezas  
                                  
Foi-me dito que tudo é uma grande ilusão. 
Querida amiga, por favor, não me deixe acreditar nisso. Conte-me uma de suas histórias que me ajudam a ter esperança. Apresente-me novamente à luz antes que eu obscureça no limiar da insanidade. Encontro-me num cambaleio de crenças e suposições entre a palavra espiritual e a palavra terrena. Onde você se encontra? Onde deveríamos nos encontrar? - aliás, quando foi que nos perdemos?
Não imponho minhas considerações acerca de minhas próprias dúvidas, pois não tenho convicção de nenhuma delas. Eu sei que deveria ter. A certeza deveria habitar na significação nos sentimentos ou da racionalidade - mas não há. Como hei de viver sem ela?
Por um tempo a ilógica da fé me desabituou ao pensamento. Eu era preciso naquilo que era incerto. 
Agora, portanto, penso e cambaleio. Com todas as minhas incertezas e desequilíbrios, tento procurar a ti e consequentemente a mim. 
Cadê você, querida amiga?


Desejos

O prazer não é ilusório. 
Prazer, doce e venenoso prazer. O verdadeiro sentido de tudo se encontra no sentir e não no saber. Está nas minhas satisfações, no luxo da minha carne, no pecado do meu corpo nu. Quantas sensações cabem na contemplação da beleza do outro, na suavidade do olhar, na tempestuosidade da paixão? A minha imaginação me dá a oportunidade de me tocar e fingir que você está aqui.  Dois amantes. Duas facetas apaixonadas. O prazer escorre lentamente por mim. 
Toque. Olhar. Sentir.
E então respiro do seu ar.
Bebo do elixir da sua essência.
Seu gosto é agridoce.
Confundimos um ao outro e já não sabemos quem éramos. Não sabemos quem somos. 
Cadê você, il mio amore?


Metamorfose

A arte é o máximo alcance de estar vivo.
Transfiguro-me nas minhas fantasias e as torno reais. Crio personagens em minhas poesias, em minhas canções, em minhas histórias fictícias: eles se adaptam, têm recaídas e, principalmente, se reconciliam com o meu passado. Na arte há disciplina e impulsividade. Há metamorfose.  A cada passo de dança me deparo com a morte e a conduzo para meu bel-prazer. 
Canto, danço, imagino: uma vez, duas vezes. Quantas vezes for possível. 
Aos poucos me canso. Sinto dor e ainda sim me sinto satisfeito.
Eis o poder da estética e da criatividade.
Eis a minha capacidade de me reinventar. 
Cadê você, estabilidade?



Ambição

Há uma enorme frustração nas limitações do dia a dia.
A rotina e as obrigações. Os medos. As injustiças. O que ambicionar? Até onde podemos chegar?
Até quando devo tentar me encaixar?
Estar vivo me dá a capacidade de tirar tudo o que posso do que me permeia. Tudo a meu favor. O meu poder está na minha resistência contra o que esperam de mim. A minha ambição é ser mais do que eu espero de mim.
Os meus questionamentos, os meus desejos e a minha arte se confluem.
Cadê você, foco?


Presente

Revérbero pelas possibilidades e me sinto ameaçado pelo pessimismo. Por que temos perguntas se não para serem respondidas? Por que temos desejos se não para realizá-los? Por que temos a arte se não para demonstrá-la?

As palavras são a minha catarse!

Mas... sei que ainda não estou livre, pois ainda não o encontrei.
Cadê você?

...

Quem é você?


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"Como se sua vida se emancipasse e tivesse de repente seus próprios interesses, que não correspondiam de maneira alguma aos dele. Ele se sente responsável por seu destino, mas seu destino não se sente responsável por ele."  Milan Kundera. 

     

domingo, 11 de setembro de 2016

Quando os velhos espíritos dançam

por Matheus Campos


Já são quase 2 horas da manhã e os espíritos mais velhos dançam alegremente nas ruas – eles aproveitam a oportunidade que a maioria dos vivos está desacordada. É propício. É bonito.
Silenciosamente, de mãos dadas, eles formam um círculo. Eles rodam. Eles voam pelo céu estrelado. Criam-se os ventos que batem nas portas e nas janelas das casas, quase como um aviso sutil da festa dos mortos. Viva! Viva! Há alegria do outro lado da vida e ela está revestida pela morte!
 Um quarto de uma das residências está com a luz acesa: as almas, portanto, o invadem através das sombras, mas sem a intenção nenhuma de acordar quem quer que esteja lá. Os movimentos são suaves e até mesmo poéticos. A comemoração dos espíritos antigos é, de fato, o evento mais cordial que a humanidade pode receber. Regozijai-vos então.
Enquanto a alegria paira no ar, eles dançam com fervor e leveza.
Silêncio.
A luz está acesa.
Os ventos batem nas janelas e nas portas.
A noite é curta e essa vida também.
Eis que um menino de dentro do quarto iluminado acorda. Toma um grande susto: sombras (muitas delas) dançam na sua parede! Ele contém o grito, mas não deixa de expressar seu espanto em sua face. Fica paralisado pelo medo e tragicamente urina deitado na cama - está tão assustado que não se envergonha pelo ato.
Eis que os espíritos percebem o olhar ingênuo e interrompem a dança para encará-lo de volta. As sombras desaparecem, mas eles – os mortos - não vão embora tão cedo. Querem conhecer mais do garoto que acabou com a celebração não-viva das almas transgressoras.
É um momento inquietantemente tácito, até que um dos espíritos se aproxima e o reconhece. É óbvio que o reconheceria: o menino é ele mesmo. Ou melhor, é o seu corpo emprestado para passar por esses tempos. “É tão bonito”, a alma pensa. Enquanto a carne não pensa e apenas sente o pânico de presenciar o desconhecido.
“Conte-me seus medos”, pede a alma obsequiosamente.
O garoto, mais calmo ao reconhecer sua própria voz, responde a si mesmo pela mente da matéria:
“Por que sou tão limitado?”
Não satisfeito, continua a se questionar:
“Por que você me escolheu para ser?”
Ao ouvir a última pergunta, o espírito esvaece e a luz do quarto, de alguma maneira, é apagada. O garoto, que já não sabe se está vivo por falar com sua própria morte, fecha os olhos a fim de acabar com essa cena.
Ao abrir novamente, já é de manhã.
Era um sonho?
Vive-se então mais um dia sem obter respostas.
Anoitece mais uma vez e ele, dessa vez, não consegue mais dormir. Espera com certa ânsia e pavor os espíritos aparecerem novamente.
Eles tardam, mas realmente aparecem. Eles sempre retornam.
Só que dessa vez não é uma festa. A morte não está mais dançando. Eles estão de luto. E o que acontece quando a morte entra em estado de luto? O que será que já está morto e deve morrer outras vezes?
O menino, sem saber se é vida ou se é sonho, se é ilusão ou se é a verdade, passa a ver imagens de si mesmo. Imagens dele no passado, imagens dele aparentemente mais velho... Todas as imagens sussurram palavras das quais ele desconhece e, logo em seguida, vão tomando formas de sombras nas paredes, como aquelas que dançavam na noite anterior.
Tudo parece muito incerto, mas, aos poucos, ele vai descobrindo o segredo daquelas almas antigas que festejam e ficam de luto:
São todas suas. Todas.
Para onde elas vão depois disso?
Para onde ele vai?
Para onde eu vou?
Silêncio.
A luz se apaga.
Os ventos batem nas janelas e nas portas.
A noite é curta e essa vida também.


sábado, 20 de agosto de 2016

Reflexo

Por Matheus Campos

Era uma noite fria e chuvosa de sábado e eu estava enclausurado em meu quarto. Pensava cautelosamente na minha rotina diária e me sentia exausto pela pressão: trabalhos, estudos a concluir... Sentia-me intranquilo pela obrigação de produzir e prestar contas aos outros. Esmoreci.
Foi quando, distraído, me olhei através do reflexo de um espelho. E então, lentamente, foi surgindo um pequeno assombro em meu ser: Eu não identifiquei a mim ao me ver!
Descobri que não me conheço! Na imagem refletida me estranhei e, todo trêmulo, me infantilizei pelo espanto da descoberta – eu existo e não me compreendo!
Passei a contemplar o meu eu que me encarava. Quis fazer muitas perguntas a ele, mas era inútil. Tudo que eu o dissesse seria em vão: as respostas são as minhas palavras do mesmo instante. A resposta é a pergunta e o som vem de mim.
Apesar de que aquela imagem, a qual deveria ser eu, não era. Não era! Quem sou então?
Eu o amo? Eu me amo?
Eis o caos: Eu deveria amar o que eu vejo?
O amor, na minha pífia compreensão, é a afeição pelo outro por conta dos laços de consanguinidade ou de relações sociais.
A contiguidade dos fatos me confunde: o meu reflexo não tem as minhas memórias, as minhas preocupações, os meus desejos.
Toquei-me com o intuito de sentir o que eu estava sendo. Meu eu refletido imitava meus gestos, mas tenho a certeza de que não sentia o mesmo. Ele não podia roubar a minha essência. Tínhamos, no entanto, uma coisa em comum: não estávamos livres.
Desarmado, eu tinha medo. Apaixonado, eu era incerto.
Continuei a olhar para o meu reflexo.
Olhando-me questiono: O que você faria para ter o que quer?
Revoltado, sem receber nenhum retorno, quebrei o espelho. Quebrei-o em pedaços que se espalharam pelo chão. Assassinei a minha imagem. Destruí o fardo de mim mesmo.
Eis um fato curioso: dessa maneira, recebi uma resposta.
O objeto quebrado constituía o meu poder de decisão. Partes de mim (de outrora) estavam no chão do meu quarto e assim aumentaram as minhas perspectivas de reflexo. As possibilidades são inúmeras.
Rendo-me, portanto, ao acaso de que outro eu me olhe e me desconheça. Espero ansiosamente para ser quebrado também.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

A necessidade da procrastinação

por Matheus Campos

Até um tempo atrás eu acreditava que a procrastinação era um mal terrível do mundo contemporâneo. As distrações são muitas: redes sociais, netflix, crises de existencialismo... E lá se vão horas e horas de pura ociosidade. O pior é que sempre bate aquele peso na consciência de ter deixado o tempo passar sem fazer nada de útil. Há uma sensação de falha, de agonia e de medo: o de não conseguir mesmo sabendo que ainda é possível. Eu costumava pensar que o tempo – metafísico e infinito – era como um inimigo imaterial em minha vida. Ou melhor, o que eu faço dele.
Já não penso mais dessa forma. Quer dizer, ainda acredito que o vício em fazer as coisas sob pressão não é legal. O ato de postergar tarefas (“amanhã eu faço”, “outra hora eu continuo”) é muitas vezes inerente a certa inconstância e impaciência, das quais predominam em uma geração que quer tudo tão fácil e rápido. Na verdade, é até mais conflitante do que isso. O fato é que quase sempre tudo parece muito incerto. A gente acumula tantas informações sobre o mundo que nos permeia a ponto de já não sabermos o que é realmente sonho ou ganância, o que é necessário ou dependência, e nem quais são as expectativas dos outros ou nossas.
Escrevo esse texto pensando nos meus colegas do meio acadêmico e também profissional, muitos deles indecisos e sem muitas aspirações na vida como eu. Certo dia conversei com alguns deles sobre as dificuldades e inseguranças que temos. Tudo que consegui sentir foi pena: de mim, de nós e de todos que estão sempre tão preocupados em se preocuparem. Seja na faculdade, no trabalho ou em qualquer instância do cotidiano.
Em uma das minhas (várias) distrações, me deparei com uma frase de um autor desconhecido que dizia o seguinte: “A obrigação de produzir aliena a paixão de criar". Pois é. Eis uma verdade irrefutável. Não dá para ficar produzindo compulsivamente. “Tenha foco”, eles dizem. “Priorize o essencial”. O que é mesmo o essencial?  E se eu preferir trabalhar com a inspiração? Com meus instintos? E se eu achar fundamental tirar o dia para só comer e dormir o dia inteiro? Ou beber uma cerveja com meus amigos. Caminhar sem rumo. Ir ao cinema. Tanto faz.
Certa vez Chico Buarque foi entrevistado por Clarice Lispector para o extinto Jornal do Brasil, em meados de 1968. Quando ela perguntou sobre o seu modo de produzir, ele declarou: “Às vezes estou procurando criar alguma coisa e durmo pensando nisso, acordo pensando nisso – e nada. Em geral eu canso e desisto. No outro dia a coisa estoura e qualquer pessoa pensaria que era gratuita, nascida naquele momento. Mas essa explosão vem do trabalho anterior inconsciente e aparentemente negativo”. Nunca me senti tão representado. Aposto que não sou o único.
O que há de tão turbulento na minha instabilidade entre o controle e o não querer? O que é o fútil senão uma tentativa de sanar as dores da vida condenada à ordem?  Por que não o prazer fugaz ao invés das obrigações sistemáticas e contínuas? Será que há mesmo algo no tempo a se perder senão a nós mesmos já perdidos sem saber?!
O que eu sei é que um dia tudo será memória. E eu prefiro que a minha vá muito além das lembranças de uma rotina mecânica e desgastante.


     

domingo, 1 de maio de 2016

(Não) Sou

Não sou nada do que qualquer pessoa já tenha me qualificado, caracterizado ou pensado. 
Eu sou o tempo e a adaptação. 
Eu sou eu e às vezes sou um pouco dos outros. 
Eu sou a timidez, o erro, a insegurança.
Eu sou a amizade, o carinho, a paz e a inconstância. 
Eu sou amor. Sou infelicidade também.
Não sou uma interrogação nem uma afirmação. 
Não sou uma frase de impacto.
Sou um corpo. Sou alma.
Sou frieza. Sou paixão.
Sou calma. 
Sou tudo o que quero ser e nada do que pensei ser. 
Sou a indignação. Ou melhor, serei, sou e fui a indignação. 
Sou o medo do olhar do outro e abarcador dos meus sentidos. 
Do que sinto de mim e da proximidade - leve ou pesada. 
Sou o abandonar e o abandonado. 
Sou a surpresa - muitas vezes belas, outras ingratas. 

Esta é uma contribuição minha como ser humano ao redemoinho de pensamentos e sensações alheias.
Espero realmente que essa necessidade de ser não esteja só em mim. Que eu seja cada vez mais eu. 
Que nos próximos anos eu tenha gosto, também, de ser cada vez mais nós.
Que assim seja então: bem-vindos ao meu novo ciclo.

 

sábado, 16 de abril de 2016

Excerto da desobediência

 por Matheus Campos

Estou me desorganizando.
Não sigo mais a quem eu fui para sentir carinho por quem eu posso ser.
Observo, de longe, o voo das gaivotas pairando sobre mim e meu único intento é o de criar asas. O caminhar na terra é lento, é arrastado. Demonstra uma incapacidade inerente do ser que sou: jamais irei voar como uma ave, pois equivocadamente nasci humano - ou melhor, um híbrido.
Reconheço a inveja que sinto. Compreendo que as verdades sujas cercam não só a mim, mas ao sacerdote que comete um crime, à prostituta que ora e aos escandalosos que quando lhes convém emudecem.
Criei em mim ritmos dissonantes que constituem a confusão em que vivo. Em meus pensamentos. Em meus atos. Em minhas falhas tão perfeitas que designam um sucesso.
A minha única ordem, portanto, está na minha vontade de não ser e em meu fracasso ao se equiparar às gaivotas.
“Voe, pode voar! Mas não se esqueça da lama em seus pés!”
E onde está meu par para voar em sincronia?
Talvez onde eu nunca tenha pisado.
Sendo assim, devo trilhar mais caminhos em terra antes de alcançar o céu; Encontro os limites do tangível até migrar ao ilimitado do crível.
Buscando-me fugi.
O que há nessa minha vontade de chorar por ter perdido tempo?
Distraio-me com frequência e não cesso minha curiosidade pelas futilidades do mundo. Alimento-me pelas migalhas daquilo que já provei. Claro que me sobra tempo para degustar o sabor do novo - mas logo se criam restos para o meu novo eu digerir.
É um processo que se repete, como uma revelia por não compreender o sentido das coisas.
A busca pela perfeição é uma apoteose da obediência.
Como vou obedecer aos padrões se não obedeço nem a mim mesmo?
Minhas memórias abarcam minhas mágoas das quais clamo pelo esquecimento.
Minhas ambições abarcam meus desejos das quais clamo pela humildade.
Vivo pelos cantos até eu encontrar a oportunidade certa de estar no centro. Meu modo é ir absorvendo o que foi deixado para trás (é a única maneira de alcançar aquilo que ninguém ainda encontrou).
Não. Não fui. Não pude. Não quis.
Não sei.
Não aceito uma criatura tão bestial se enobrecer tanto.
Não cabe tanto ego ao animalesco. É rude. Nego com veemência a minha participação nesta batalha de frouxos. Meu instinto humano acata o meu lado bruto.
E é por isso que resisto.
E não desisto.
O que há para resistir e desistir?
Temo apenas que a desorganização que construo seja tão organizada a ponto de me destruir.

Tento mais uma vez, no entanto, sem nenhum compromisso com a obediência. 

         

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Visceralmente eu

por Matheus Campos

No recôndito de mim encontrei o meu oposto.
Vi o seu rosto.
Senti o seu desgosto.
E tudo isso também é meu.
Ele é meu maior aliado e também aquele com quem tenho o pior dos conflitos. Esconde-se na minha carcaça por medo das vozes que surgem para atormentá-lo à noite. Os pássaros de asas cortadas se aninham todos no escuro - e eles conversam entre si como se conhecessem todos os meus segredos mais sombrios, tal qual o pior de todos: eu os deixei incapacitados de voar. E não nego que foi por puro egoísmo humano.
O mesmo egoísmo que já não quis ajudar por preferir a si mesmo. O mesmo que, um dia, invejou por raiva de outrem. É o mesmo que também deseja - profundamente. A satisfação imediata de ser e receber. O gozo nos prazeres do mundo. Muitas vezes tão imerso em mim que me esqueço de todo o resto. 
... Encontro-me com o lado negro de mim porque visceralmente sou. O ser de amor e bondade é real, mas muitas vezes se disfarça de uma máscara cintilante que atrai - o obscuro, o intrínseco, o desbocado afasta, mas também atrai: o mais verdadeiro que há. É uma dança entre os dois lados. Ambos são intensamente um só.
Obstinadamente o meu lado inverso se desfaz e, só então, eleva a minha enigmática alma ao lembrar-se de suas ambições.  O entrelaçamento daquilo que desperta nos meus sonhos com aquilo que vivo cria o apogeu do que sou, do que fui e do que jamais serei.
O grito enclausurado quase me matou, mas o silêncio me fortaleceu. O silêncio arrebatou qualquer emoção que poderia arrancar minhas entranhas. Levar-me-ia ao fundo do céu antes que eu caísse no mais profundo buraco.

Permanecem, enfim, a indiciosa vontade própria e o mais belo sonho humano. Unidos. Sendo, cada um deles, visceralmente eu.