sábado, 20 de agosto de 2016

Reflexo

Por Matheus Campos

Era uma noite fria e chuvosa de sábado e eu estava enclausurado em meu quarto. Pensava cautelosamente na minha rotina diária e me sentia exausto pela pressão: trabalhos, estudos a concluir... Sentia-me intranquilo pela obrigação de produzir e prestar contas aos outros. Esmoreci.
Foi quando, distraído, me olhei através do reflexo de um espelho. E então, lentamente, foi surgindo um pequeno assombro em meu ser: Eu não identifiquei a mim ao me ver!
Descobri que não me conheço! Na imagem refletida me estranhei e, todo trêmulo, me infantilizei pelo espanto da descoberta – eu existo e não me compreendo!
Passei a contemplar o meu eu que me encarava. Quis fazer muitas perguntas a ele, mas era inútil. Tudo que eu o dissesse seria em vão: as respostas são as minhas palavras do mesmo instante. A resposta é a pergunta e o som vem de mim.
Apesar de que aquela imagem, a qual deveria ser eu, não era. Não era! Quem sou então?
Eu o amo? Eu me amo?
Eis o caos: Eu deveria amar o que eu vejo?
O amor, na minha pífia compreensão, é a afeição pelo outro por conta dos laços de consanguinidade ou de relações sociais.
A contiguidade dos fatos me confunde: o meu reflexo não tem as minhas memórias, as minhas preocupações, os meus desejos.
Toquei-me com o intuito de sentir o que eu estava sendo. Meu eu refletido imitava meus gestos, mas tenho a certeza de que não sentia o mesmo. Ele não podia roubar a minha essência. Tínhamos, no entanto, uma coisa em comum: não estávamos livres.
Desarmado, eu tinha medo. Apaixonado, eu era incerto.
Continuei a olhar para o meu reflexo.
Olhando-me questiono: O que você faria para ter o que quer?
Revoltado, sem receber nenhum retorno, quebrei o espelho. Quebrei-o em pedaços que se espalharam pelo chão. Assassinei a minha imagem. Destruí o fardo de mim mesmo.
Eis um fato curioso: dessa maneira, recebi uma resposta.
O objeto quebrado constituía o meu poder de decisão. Partes de mim (de outrora) estavam no chão do meu quarto e assim aumentaram as minhas perspectivas de reflexo. As possibilidades são inúmeras.
Rendo-me, portanto, ao acaso de que outro eu me olhe e me desconheça. Espero ansiosamente para ser quebrado também.


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