domingo, 11 de setembro de 2016

Quando os velhos espíritos dançam

por Matheus Campos


Já são quase 2 horas da manhã e os espíritos mais velhos dançam alegremente nas ruas – eles aproveitam a oportunidade que a maioria dos vivos está desacordada. É propício. É bonito.
Silenciosamente, de mãos dadas, eles formam um círculo. Eles rodam. Eles voam pelo céu estrelado. Criam-se os ventos que batem nas portas e nas janelas das casas, quase como um aviso sutil da festa dos mortos. Viva! Viva! Há alegria do outro lado da vida e ela está revestida pela morte!
 Um quarto de uma das residências está com a luz acesa: as almas, portanto, o invadem através das sombras, mas sem a intenção nenhuma de acordar quem quer que esteja lá. Os movimentos são suaves e até mesmo poéticos. A comemoração dos espíritos antigos é, de fato, o evento mais cordial que a humanidade pode receber. Regozijai-vos então.
Enquanto a alegria paira no ar, eles dançam com fervor e leveza.
Silêncio.
A luz está acesa.
Os ventos batem nas janelas e nas portas.
A noite é curta e essa vida também.
Eis que um menino de dentro do quarto iluminado acorda. Toma um grande susto: sombras (muitas delas) dançam na sua parede! Ele contém o grito, mas não deixa de expressar seu espanto em sua face. Fica paralisado pelo medo e tragicamente urina deitado na cama - está tão assustado que não se envergonha pelo ato.
Eis que os espíritos percebem o olhar ingênuo e interrompem a dança para encará-lo de volta. As sombras desaparecem, mas eles – os mortos - não vão embora tão cedo. Querem conhecer mais do garoto que acabou com a celebração não-viva das almas transgressoras.
É um momento inquietantemente tácito, até que um dos espíritos se aproxima e o reconhece. É óbvio que o reconheceria: o menino é ele mesmo. Ou melhor, é o seu corpo emprestado para passar por esses tempos. “É tão bonito”, a alma pensa. Enquanto a carne não pensa e apenas sente o pânico de presenciar o desconhecido.
“Conte-me seus medos”, pede a alma obsequiosamente.
O garoto, mais calmo ao reconhecer sua própria voz, responde a si mesmo pela mente da matéria:
“Por que sou tão limitado?”
Não satisfeito, continua a se questionar:
“Por que você me escolheu para ser?”
Ao ouvir a última pergunta, o espírito esvaece e a luz do quarto, de alguma maneira, é apagada. O garoto, que já não sabe se está vivo por falar com sua própria morte, fecha os olhos a fim de acabar com essa cena.
Ao abrir novamente, já é de manhã.
Era um sonho?
Vive-se então mais um dia sem obter respostas.
Anoitece mais uma vez e ele, dessa vez, não consegue mais dormir. Espera com certa ânsia e pavor os espíritos aparecerem novamente.
Eles tardam, mas realmente aparecem. Eles sempre retornam.
Só que dessa vez não é uma festa. A morte não está mais dançando. Eles estão de luto. E o que acontece quando a morte entra em estado de luto? O que será que já está morto e deve morrer outras vezes?
O menino, sem saber se é vida ou se é sonho, se é ilusão ou se é a verdade, passa a ver imagens de si mesmo. Imagens dele no passado, imagens dele aparentemente mais velho... Todas as imagens sussurram palavras das quais ele desconhece e, logo em seguida, vão tomando formas de sombras nas paredes, como aquelas que dançavam na noite anterior.
Tudo parece muito incerto, mas, aos poucos, ele vai descobrindo o segredo daquelas almas antigas que festejam e ficam de luto:
São todas suas. Todas.
Para onde elas vão depois disso?
Para onde ele vai?
Para onde eu vou?
Silêncio.
A luz se apaga.
Os ventos batem nas janelas e nas portas.
A noite é curta e essa vida também.


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