sábado, 16 de abril de 2016

Excerto da desobediência

 por Matheus Campos

Estou me desorganizando.
Não sigo mais a quem eu fui para sentir carinho por quem eu posso ser.
Observo, de longe, o voo das gaivotas pairando sobre mim e meu único intento é o de criar asas. O caminhar na terra é lento, é arrastado. Demonstra uma incapacidade inerente do ser que sou: jamais irei voar como uma ave, pois equivocadamente nasci humano - ou melhor, um híbrido.
Reconheço a inveja que sinto. Compreendo que as verdades sujas cercam não só a mim, mas ao sacerdote que comete um crime, à prostituta que ora e aos escandalosos que quando lhes convém emudecem.
Criei em mim ritmos dissonantes que constituem a confusão em que vivo. Em meus pensamentos. Em meus atos. Em minhas falhas tão perfeitas que designam um sucesso.
A minha única ordem, portanto, está na minha vontade de não ser e em meu fracasso ao se equiparar às gaivotas.
“Voe, pode voar! Mas não se esqueça da lama em seus pés!”
E onde está meu par para voar em sincronia?
Talvez onde eu nunca tenha pisado.
Sendo assim, devo trilhar mais caminhos em terra antes de alcançar o céu; Encontro os limites do tangível até migrar ao ilimitado do crível.
Buscando-me fugi.
O que há nessa minha vontade de chorar por ter perdido tempo?
Distraio-me com frequência e não cesso minha curiosidade pelas futilidades do mundo. Alimento-me pelas migalhas daquilo que já provei. Claro que me sobra tempo para degustar o sabor do novo - mas logo se criam restos para o meu novo eu digerir.
É um processo que se repete, como uma revelia por não compreender o sentido das coisas.
A busca pela perfeição é uma apoteose da obediência.
Como vou obedecer aos padrões se não obedeço nem a mim mesmo?
Minhas memórias abarcam minhas mágoas das quais clamo pelo esquecimento.
Minhas ambições abarcam meus desejos das quais clamo pela humildade.
Vivo pelos cantos até eu encontrar a oportunidade certa de estar no centro. Meu modo é ir absorvendo o que foi deixado para trás (é a única maneira de alcançar aquilo que ninguém ainda encontrou).
Não. Não fui. Não pude. Não quis.
Não sei.
Não aceito uma criatura tão bestial se enobrecer tanto.
Não cabe tanto ego ao animalesco. É rude. Nego com veemência a minha participação nesta batalha de frouxos. Meu instinto humano acata o meu lado bruto.
E é por isso que resisto.
E não desisto.
O que há para resistir e desistir?
Temo apenas que a desorganização que construo seja tão organizada a ponto de me destruir.

Tento mais uma vez, no entanto, sem nenhum compromisso com a obediência.