terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Estranhos temporários

Uma noite fria, um copo de cerveja e a urgência de uma sensação.

por Matheus Campos

Em contraponto à música alta e à euforia das pessoas, era possível me encontrar em silêncio, sentado frente à uma mesa com um copo de cerveja na mão. Bebia em goles pequenos, pois não queria me embebedar naquele momento. Meu estado ébrio costuma me confundir e já não tinha mais espaço para confusões. Não podia mais brincar com minha própria felicidade que, uma vez sentida, é posta à prova em minhas ações. Não era cabível eu passar por avaliações naquela rara condição de lucidez. Sentia-me alheio - ao ambiente, aos outros, a mim mesmo.

É precisamente nesses momentos de intranquilidade do ser que constatamos as verdades mais cruas sobre nós mesmos. Somos luz e sombra em constante evolução, mas com uma agridoce certeza de que também somos temporários. A luz se apaga, a sombra conflui com o breu. Naquele instante eu era escuridão, como a própria noite, mas brilhavam pequenas luzes em mim, como as estrelas.

Foi quando me dei conta de que eu era estranho a mim. Os outros também eram estranhos a mim. Eu os desconhecia e isso me assustava, porém, ao mesmo tempo, havia uma estranha sensação de querer conhecê-los. Ou melhor, de querer me conhecer e, consequentemente, torná-los cientes desse autoconhecimento. É um processo que interfere no próximo. Eu sou eu e sou os outros: o individual e o coletivo numa só sintonia.

No entanto, estávamos tão distantes. As coisas que nos uniam eram rasas, mas não deviam ser: os beijos, as danças, as bebidas. Escapes, fugas, quando deveria haver entregas, aprofundamento. Eu sentia urgência, ânsia, vontade: eu queria fazer parte e não me sentir a parte. Eu desejava euforicamente por algo que fosse verdadeiro. Eu queria me amar, eu queria poder amá-los.

E então, em um momento de distração atenta, eu o vi. Aquele que era o mais estranho para mim, mas sempre me atraiu. Seu nome é Paixão. Inesperadamente ele apareceu naquela festa. Deixei o copo de cerveja na mesa e me envolvi com o objetivo de chegar mais perto. De início pensei que estava sonhando, mas senti seu toque. Era real. 

Já não estava mais lúcido. Já não era mais escuridão: me tornei somente luz que brilhava com a mesma intensidade que o fogo queima. Quantas promessas cabem num abraço e num beijo despretensioso? Eu estava prestes a descobrir. 

Abracei, toquei, senti. Desequilibrei-me. Por um momento a racionalidade anterior já não fazia mais sentido. Sentir fazia sentido. E eu senti, ah, como senti! Com a máxima profundidade que se pode sentir. O engraçado é que em menos de 20 minutos Paixão já não me era estranho, mas todo o resto ainda era. Só que isso já não importava mais: nessa estranheza nos encontramos através do sentir. Os estranhos não são meus desiguais, pelo contrário: são minhas possibilidades. 

Que sejamos então. 






quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O perigo da imprecisão em tempos de pós-verdades

Por Matheus Campos

Na sociedade contemporânea, é evidente que há uma facilidade de acesso às informações e, consequentemente, de opiniões acerca delas. Com o advento das mídias digitais e das redes sociais, se estabelece um terreno de propagação de conhecimentos que por vezes impressiona, noutras assusta, pois na medida em que é um novo espaço para se informar e ter voz, é também um recinto que engloba falácias e sensacionalismos. Esse fenômeno, ainda recente e passível de análises, afeta vários flancos: políticos, jurídicos, econômicos, e até mesmo em vidas pessoais. Mas o principal a se analisar são justamente as conseqüências numa área que é diretamente ligada ao ato de informar e opinar: a do jornalismo.

Dentro desse contexto da comunicação social, existem as vertentes daquilo que é informativo e do que é opinativo, mas com um porém: ambos necessitam de precisão e fatos objetivos para se concretizarem de maneira genuína. Erros históricos nascem da imprecisão. Profissionais como os repórteres têm o dever de serem contundentes e não emitirem juízos, pois qualquer mínimo erro ao retratar um cenário, uma história, ocasiona a falha daquele que vai expor a opinião e, consequentemente, a diversos setores da sociedade, afinal, quando um erra, a cadeia toda pode falhar: o advogado, o sociólogo, o antropólogo e mais para frente o historiador.

Com a brecha da internet de haver mais possibilidades no processo de se informar e reproduzir a informação, é necessário o dobro da preocupação na busca de fontes e na exigência da precisão ao apurar as notícias. A história sempre foi inicialmente escrita pelos veículos de comunicação e agora existem novas formas de abordá-la. Isso faz com que seja aberto um cenário de muitas incertezas e incognoscibilidades quanto ao futuro – tanto na área do jornalismo como na vida em si.

Recentemente, o Dicionário Oxford definiu “Pós-verdade” como a palavra do ano. O termo se refere a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais. Essa definição se deu principalmente por conta do referendo britânico sobre a União Europeia e nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Faz sentido trazer à tona esse conceito, pois isso se agrava precisamente de acordo com esse cenário agridoce da emissão de informações e opiniões nas redes digitais.

Para começar, os autores das notícias não possuem emancipação total ao escrever e apurar, pois a liberdade absoluta pertence ao dono do veículo onde se trabalha – no Brasil ou em qualquer lugar do mundo e de qualquer ideologia. Ao ligar esse fato ao significado da palavra pós-verdade na sociedade civil, é notório que se amplia o espaço às percepções corporativas e políticas pelos meios de comunicação. Portanto, é muito complicada e sutil a distinção entre ser um agente de opinião ou simplesmente um porta-voz de autoridade. E, principalmente, entre um verdadeiro agente de informação ou mais um enredado nas armadilhas e segmentações ocasionadas pelas redes e pelo contágio das pós-verdades.