terça-feira, 12 de maio de 2015

"Ele vê tudo"

Por Matheus Campos

Era uma típica noite de domingo e Bruno se preparava para ir ao culto, como de praxe. Naquele dia ele não estava se sentindo muito bem, pois fortes dores pelo corpo o acometiam. Pensou em não ir à igreja por conta disso e quase impediu a si mesmo de sair de casa, mas uma voz interior reprimia essa sua vontade de repousar. Afinal, aprendeu que domingos sempre são especialmente dedicados ao Senhor.
A voz que ecoava em sua mente era a de sua mãe, algo como uma intervenção; Um alerta do Deus em que crê. “Ele vê tudo Bruno. Se sente dor, tenha fé que Ele vai te curar”, disse ela quando ele demonstrou seu desejo de permanecer em casa. Além do mais, acreditava que o pesar físico que sentia era uma espécie de castigo pelos seus pecados. “Ele vê tudo”.
Sua ida ao local denominado como a “casa do Senhor” foi movida por medos. ‘Mea Culpa’. Caminhou carregando um remorso inconveniente. Seus passos eram lentos, não tinha muita pressa de chegar lá. Sabia que Priscila, sua namorada, o encontraria em frente ao portão.
Queria evitá-la devido à última conversa que tiveram, a qual tinha como tema principal o sexo. Claro que, pelos dogmas da religião, havia um consentimento de transarem somente depois do casamento. O único entrave era que ele, aos 19 anos, não queria pensar em se prender a alguém. Já estava farto de prisões.
Frequentemente se masturbava em casa. Isso começou há mais ou menos três meses, pois antes se proibia até mesmo ao impulso da ereção. Mas à medida que seu namoro se prolongava, aumentavam os seus fortes desejos eróticos – e, ironicamente, não por ela. Portanto, discretamente costumava ir ao banheiro nas madrugadas e fazia o ato com seu pênis.
 Tentava não causar muito barulho pelo fato de que sua mãe o sondava. Tanto que uma vez o flagrou no próprio quarto e ficou atônita. Ele, mais ainda. Era um misto de vergonha e temor – a ela e a Deus. Após esse fatídico evento, o único recado da mãe a ele foi composto pelas mesmas palavras que o apavoram de maneira incessante: “Ele vê tudo”.
Bruno chegou ao local e Priscila ainda não estava lá. De pé, encostou-se no portão de ferro frente à igreja e ficou quieto, refletindo. As dores ainda eram um incômodo permanente. Sem contar a angústia causada pelas preocupações do dia a dia: trabalhos de faculdade, pendências no serviço...
As pessoas em geral o consideravam como o cara perfeito. Cursava letras em uma instituição federal e rapidamente conseguiu estágio em sala de aula num colégio particular. Bom filho, bom profissional, bom estudante e, principalmente, uma boa pessoa. Temia que só não fosse bom em dois pontos: namoro e religião.

Condenava-se por ser um ‘fiel’ que, longe da comunidade cristã, ia contra os preceitos da bíblia. Reprimia-se fervorosamente por ser quase noivo de uma mulher e não sentir muita atração por ela. Seus desejos e imaginação se voltavam para outras vertentes. Aliás, Bruno não se aproximava muito de homens justamente por motivos de cautela.
Priscila chegou à igreja com atraso de 15 minutos do combinado. Sua desculpa era por estar ensaiando – era cantora e pregava com suas canções. Eles se cumprimentaram com um beijo nos lábios e adentraram na igreja.
Sentaram-se no primeiro banco de madeira e ficaram de mãos dadas, silenciosos. Cada fiel que se aproximava deles era recebido com o cumprimento “A paz do senhor”. O culto começou exatamente às 19h45min.
Conforme o tempo passava, ele se sentia cada vez mais fora de si. Em nenhum momento prestou atenção no que o pastor falava. Sentia as dores. Pesavam os seus medos. A presença da sua dor de viver era constante, pois a força maior das convenções sociais o pressionava. 
Tentou gritar, não conseguiu. Tentou correr, paralisou-se. Queria somente libertar-se dessa repressão vil de alguma maneira. A repressão, diga-se de passagem, se dava pela música que o proibiam de escutar, pela tatuagem que nunca pôde fazer, pelos desejos que não pode ter, pois a religião em que foi condicionado desde a infância impusera isso. Bruno não odiava os dogmas ou os fiéis. Respeitava tudo e a todos. Odiava somente a contradição de estar preso a uma tortura proporcionada por ele mesmo.
Sentia-se cada vez mais apertado por todas essas pressões. Tenso. Precisava de alguma forma se libertar disso, caso contrário ficaria louco.  Portanto, o fez da maneira mais natural para um ser humano:
Soltou um baita peido fétido e barulhento.
A leveza dele e o desconforto de outros foi, até então, seu maior protesto contra situações em que sempre se via numa situação exatamente oposta.

Ninguém poderia imaginar quem foi o responsável pelo impressionante pum. Como diz sua mãe, só ele mesmo e Deus poderiam saber, afinal, “Ele vê tudo”.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Nascimento incongruente

por Matheus Campos


Passaram-se nove meses desde a última vez que Clara entrou em conflito com a sua sanidade.
Comumente, o mesmo tempo de gestação de uma grávida.
Irônico, pois ela, apesar de há tempos não ter relações sexuais, sentia-se exatamente dessa maneira: como se estivesse carregando algo dentro de si - análogo a um feto que cresce dentro da barriga. 
E então, finalmente, chegou a hora de fazer o parto.
Clara vai dar à luz - mesmo sem nunca ter encontrado saída para a sua escuridão, a não ser pelo próprio nome.
Aliás, antes de mais nada, é preciso ressaltar que há um medo desmesurado durante esse processo...
Não, não é o medo natural que uma verdadeira grávida poderia ter, é algo maior. 
Clara está prestes a dar vida a algo que ela nem sabe o que é. E, certamente, não é outro ser vivo.
No seu quarto, ela está nua, à deriva. Esperando a hora. Sempre esperando...
Seu estado é deplorável. Está aparentemente triste e sentada na beirada da cama diante de suas roupas sujas jogadas no chão. O cheiro da fumaça do cigarro impregnado nelas é tão repugnante quanto o vômito que deixou no banheiro daquele bar. E a repulsa, ironicamente, não é pelo aroma do tabaco.  As circunstâncias dos fatos daquele fatídico contato com sua natureza ébria fedem mais. 
Não cabe a mim entrar em detalhes do que lhe aconteceu. Só posso dizer que envolve fraquezas e, principalmente, sentimentos profundos. Confusos, mas todos filtrados com a mesma intensidade.
Às vezes ela pensa que é bipolar.
Tripolar;
Quadripolar.
A vida - e por dizer 'vida' remeto à sociedade, aos moralismos, às relações humanas - faz com que ela se sinta cada vez mais isolada e desamparada. Os rótulos causam angústia. As buscas incessantes.
Não sabe onde se encaixa. Ou se é cabível de encaixar em algo. 
Por vezes feliz. Outrora infeliz. Feliz. Infeliz.
Felizinfelizfelizinfelizfelizinfelizfelizinfeliz.
Assim segue o ciclo, quase como num loop eterno.
Ela não sabe mais o que quer, somente tem a compreensão do que não gosta. Ela vê. Ela teme. Ela deseja. 
Ela.
Em instantes, vem a autopercepção do seu egoísmo.
A naturalidade do ser.
A verdade é única: Tudo que ela fez consigo mesma tinha mais a ver com fragmentos inúteis que não ajudam a constituir o todo. Algo como tentar montar um quebra-cabeça com peças que não se conectam.
Seu quarto está imerso sob uma penumbra, mas com um simples ato, Clara o ilumina por inteiro. 
O parto acontece sem a ajuda de ninguém e nessa hora acontece o milagre mais surpreendente:
O ser humano faz nascer a si mesmo.

A vida morre e concebe outra - não um bebê e nem mesmo uma outra mulher, apenas vida.