quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sinais

por Matheus Campos

            Eu já não sou mais eu e não sei o que sou.
Já não quero mais o que quis, mas ao menos sei o que busco.
Sei também que meus passos são pesados e corro na direção de um objeto que se move. Não posso caracterizá-lo - desconheço sua verdadeira forma. Ele foge de mim. Quanto mais eu penso que estou me aproximando, mais a coisa fica distante da minha vista. E o mais estranho de tudo é que a sua imagem se distorce a cada novo olhar que dou.
É possível que eu não o alcance por não me pertencer. Como saberei se é o caminho errado? A experiência instantânea de viver não permite ensaios. A missão foi dada sem objetivos. Ou os objetivos foram dados sem uma missão. Ou não há missão. Ou não há objetivos. Ou há. Ou não há.
Haverá? Há de ser?
Já foi?
Sinto-me cego, pois não me é permitido ver o todo. Sinto-me surdo, pois não ouço todos os recados com clareza. Sinto-me mudo, pois não tenho direito à verdadeira voz.
Adentrar-me-ei, mais uma vez, num redemoinho de obrigações e verdades que não são minhas. Sou jogado como se fosse leve, mas  peso como se eu não pudesse nem me levantar. Apesar disso tudo, caminho - mais do que isso: corro.
Corro de e corro atrás. Interesses, desejos, vaidade - repito: corro deles e corro atrás também. Mas temo o mal. Tenho repúdio ao tédio e fico assustado com o karma. É fascinante!
Disfarço-me com uma harmonia irônica que me isenta de comparativos e frustrações. Eis o (des)equilíbrio do ser. Eis o romantismo de viver.
Sou um enigma. Às vezes me vejo nas luzes que iluminam noites amargas - amedronta-me saber que talvez eu seja só um fragmento da escuridão.
Sou a esperança. O porto-seguro de uma obscuridade proclamada. A afirmação de que tudo vai ficar bem. O toque agridoce naquilo que já havia se azedado.
Sou um vagalume. Carrego em meu próprio corpo a sina de dar brilho à vida. Em meu voo finito crio uma alusão psicossomática ao alívio de iluminar a si e aos outros.
Foi me dado apenas um recado: "voe sem o medo de que roubem tua luz".

Já estou morto e me sinto mais vivo do que nunca.

                      

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Quando escrevo

por Matheus Campos

 Talvez a pior frustração para alguém que gosta de escrever é, por vezes, querer desabrochar palavras e não saber sobre o quê. Ou melhor: saber exatamente o que se quer falar, porém sem noção de como estruturar em um texto. Algo como possuir todos os ingredientes da receita, mas ter dificuldades na hora de prepará-la.
Pode ser melhor que eu não escreva nada. Meus sentidos me pedem para eu manter minhas histórias, meus medos e meus desejos em sigilo e, portanto, tenho guardado minhas verdades em um baú secreto. É daí que surge o receio das palavras ordenadas.
Mas já não vejo sentido em esconder. Eis que minha rebeldia contida clama por transformar a vida em arte.
E a minha arte é justamente escrever.
Escrevo mesmo diante das adversidades.  Escrevo sem saber se as coisas têm significação ou só existência. Escrevo para manter as lembranças do meu passado e revelar os possíveis caminhos de meu futuro.
Escrevo para mim e para os outros - sem me importar tanto com o julgamento sobre o que digo e de como o faço.
Escrevo pela autenticidade de minhas escolhas. Pela espontaneidade de um sorriso. Pelo peso presente nas lágrimas que às vezes escorrem no rosto.
Então, caro leitor, permita-me revelar fragmentos de minha história a cada novo pedaço de literatura.
Mas, para tal, a receita precisa estar pronta.
Mãos na massa!





sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Es muß sein - um desabafo

Nunca fiz o tipo de cara muito sociável ou extrovertido.
E, pra ser bem honesto, não me importo tanto com isso. 
Óbvio que a adaptação social e a comunicação são importantes para os relacionamentos, trabalhos, etc. Afinal, parafraseando Beethoven: "Es muß sein" - "Tem que ser assim". Mas, na real, não tenho interesse em me aplicar às projeções dos outros só pra obter aprovação alheia. Não é que eu queira afastar as pessoas de mim ou ser um bicho do mato, muito pelo contrário, até me sinto bem popular em várias ocasiões. Só não consigo me encaixar bem nesse baile de máscaras em que a maioria dança.
Primeira verdade: Hey, as pessoas costumam ser superficiais e falsas no dia-a-dia! Segunda: No geral, ninguém reamente dá a mínima para os problemas dos outros por já estarem ocupados demais com os próprios, ocultos. 
Acho até engraçado sempre perguntarem "Tudo bem?" de maneira tão automática. Todo mundo sabe que nunca tá tudo bem - mas é quase imoral prostrar isso aos outros, certo? A galera rejeita, pois é claro que sempre vão dar valor à animação, ao que é conveniente e socialmente 
"certo". Viva à alegria predominante, mesmo que forçada! Viva aos padrões!
Pra mim é difícil entender tudo isso. Eu prefiro dar valor às diversidades. Gosto daqueles que sabem ouvir e observar tanto quanto falar. Saber usar as palavras e o silêncio é, provavelmente, a maior arma e escudo que alguém pode ter, afinal, ficar defecando pela boca não vai levar ninguém pra lugar nenhum.
Gosto das alegrias genuínas e elogios sinceros - a naturalidade das coisas. E, por fim, dou valor ao belo e sonoro FODA-SE àqueles que só julgam, criticam, condenam e se queixam. 'Querer agradar a todos' não faz e nem nunca vai fazer parte do meu currículo da vida. Sei das minhas qualidades, das minhas falhas, do caminho que sigo e de quem realmente gosta de mim. Não tenho necessidade de ficar provando o melhor que tenho, não sou nenhuma vitrine, nenhum palhaço e, muito menos, marionete dos outros. Que se dane se me subestimarem ou julgarem mal - eu me conheço e me avalio melhor do que qualquer um. Sou o que sou quando quero ser, não preciso criar personagens.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Preencha-me (inconsequente)

Vejo-me no limiar de um túnel. Adentro, sigo no íntimo de minha solidão em busca do prazer que a luz no fim me proporcionará. Arrisco o caminho na esperança de que haverá luz, mesmo sem enxergar. Embora a escuridão também seja aprazível. A incógnita do não-visto, do inócuo, que é ao mesmo tempo tão vasto – assim como a alma de um ser humano.
Preencha-me inconsequentemente com a certeza de que já estou preenchido. Mas ainda há esse vazio pleno de minha alma que torna meu corpo insustentável. A minha carne carece daquilo que só o meu íntimo pode conceber. E para isso preciso de outro íntimo, de outra carne. O entrelaçamento necessário que encarniçadamente busco para a minha satisfação imediata. Estou no túnel, estou sobrevivendo à escuridão, mas corro, corro desesperadamente para a luz. Para o bel-prazer de sentir-se à mercê de brilhar, de ser visto. E então me sentir preenchido. Satisfeito.
Sei bem que tal iluminação jamais será a minha finalidade única de existência. Haverá outros túneis. Novos desejos. Mais. Há a certeza de que sempre ter-se-á o que ambicionar, o que gastar. Conforme os buracos desse nosso mistério que chamamos de alma vão sendo preenchidos, automaticamente eles se multiplicam, vazios. Experiência própria.
Penso se tais paixões e prazeres são somente parte de uma vaidade imorredoura inerente à nossa espécie. Mas também me pergunto: pra quê se privar e adiar aquilo que nos é cabível no presente momento sendo que o futuro é tão imprevisível?! Esperança e confiança são inimigas do querer adjacente. Mas elas também são necessárias – assim como os buracos de apetites desejosos precisam, de alguma forma, ser preenchidos. Basta termos discernimento para saber lidar com tudo isso. Ah, quem dera pudéssemos ter.
A natureza humana gosta de apresentar sua beleza, mas por trás da estética há o lado fétido e obscuro. Sempre há.
Mas cada um sabe de seus próprios túneis, de seus próprios caminhos, da sua própria construção do ser. Ah, o relativismo, as divergências, as contradições...
Ei você, dê-me o seu afago. Mostre-me o seu atrevimento. Juro que não conto pra ninguém. Preencha-me. Ajude-me com essa contradição: sou completo, mas apresento-me incompleto a ti - para que me satisfaça. Mostre-me que é possível. Eu e você. Ainda que eu tenha desconhecimento de ti, ou talvez eu já tenha te desvendado por completo. Não use da covardia de me seduzir e me deixar só na vontade. Venha. Se você criou esse amplo buraco, preencha-me. Pode ser só erotismo ou espraiar-se ao romantismo. Desde que me mostre a luz desse túnel que você mesmo criou e me inseriu nele.

                                               

sábado, 12 de setembro de 2015

Um dia sonhei

por Matheus Campos

Um dia sonhei que o orgulho do homem foi ferido.
Ele acreditava em astrologia e em amores perfeitos.  Ansiava por descobertas, experiências e afetos. Procurava pelo bom que as pessoas ao seu redor podiam oferecer. Possuía desejos intensos dos quais eram até indecifráveis para ele mesmo.
Buscou a si mesmo no outro, na arte, na bebida e até mesmo no seu próprio corpo: não encontrou. Sentiu que não se pertencia e na mesma medida que se encaixava em qualquer lugar, também não era cabível a nada e a ninguém. Eis um contraste: queria fervorosamente que o arrancassem de sua própria carne pela paixão, mas sabia que sua essência permaneceria intocável. Seu modo era o de se entregar, mas se revestia de couraças.
Encontrou alguém e em questão de meses o desencontrou. Ainda se questiona como o ódio pode ser velado pelas aparências e como a raiva se disfarça tão bem de tristeza. Era ele conversando com seu próprio ego.
Ande, coragem! Vá atrás, pensou. O que queria? O que os outros lhe disseram que ele precisava. O que precisava? O que ele disse a si mesmo que queria. O que restou? A indecisão. O vazio revestido de medo. Os quereres próprios escondidos atrás de uma ilusão.
Enquanto isso havia as ambições e o peso do foco. Mas não queria o casual, a conquista lenta, a subordinação. O homem era rei de si próprio e lutava contra seu próprio general. Oh, quanta vaidade! Fantasiava como um mestre, sentia como um ser humano profundo e desejava como só quem tem a sorte de também ser altamente desejado.
Ei, você! Veja, somos compatíveis, vamos nos dar muito bem juntos! E depois? A paixão. E durante?  O contrato. E antes? A incerteza. E pra sempre? O nunca. E agora? Eu e você. Eu e o nada. Eu e eu.
Um dia sonhei que o homem sonhou. E, na verdade, o orgulho ferido foi seu verdadeiro despertar.

Arte: Florian Raiss

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Resenha: Uma Crença Silenciosa em Anjos (Livro)

Uma ode à melancolia

Autor faz uma alegoria ao sofrimento humano em obra de suspense

Por Matheus Campos

“Escrever é um exorcismo do medo e do ódio; pode ser uma forma de superar o preconceito e a dor. Se puder escrever, você pelo menos tem uma chance de se expressar... pode expor seus pensamentos ao mundo, e mesmo se ninguém de fato os ler ou os compreender, eles já não estarão presos dentro de você.”  p.79

A melancolia é, provavelmente, a maior aliada de um escritor. Em uma composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, eles poetizam "Assim como uma nuvem só acontece se chover; Assim como o poeta só é grande se sofrer" – eis uma verdade incontestável.
"Uma crença silenciosa em anjos" é uma obra classificada como um suspense policial e, de fato, é um bom livro inserido no contexto desse gênero. Mas o que realmente chama atenção nele são as reflexões que o compõem. Palavras sobre perda culpa, medo e injustiça, das quais são marcadas nos olhos dos leitores e sentidas com a mesma angústia que o autor passou. Não, não é uma obra autobiográfica, mas, no desenrolar das páginas, de acordo com o tom poético e profundo que acompanha a história do personagem central, só poderia ser escrita por alguém que realmente entende sobre esses detalhes da vida. E as experiências reais do autor inglês Roger Jon Ellory comprovam isso.

Ficção e realidade

Ellory, desde criança, passou por situações das quais levaram sua ingenuidade inerente da infância ruir de maneira precoce. A morte foi um dos fatores presentes: a mãe morreu de pneumonia quando ele tinha apenas 7 anos. Além disso, ele nunca conheceu seu pai e, conseguinte à perda da mãe, logo perdeu os avós também, o que levou a ser criado em um internato até os 16 anos – onde desenvolveu seu amor pela leitura, especialmente por autores como Truman Capote, Charles Dickens e Agatha Christie.
Há uma clara analogia entre esses fatos da biografia do autor e os que acontecem na vida de Joseph Vaugham, protagonista de “Uma crença silenciosa em anjos”, que foi seu quinto livro, publicado em 2005 (Ellory, nascido em 1965, só começou a escrever livros em 1997 - todos no gênero de suspense e relativamente bem avaliados pela crítica). Na história fictícia, o garoto de 12 anos vê seu pai falecer e passa a viver apenas com a mãe. Por ser religioso e ler a bíblia, tem um grande interesse pelos anjos descritos e, por isso, acreditou que após a morte seu pai se tornaria um.
 Sempre muito inteligente e leitor assíduo, sonha em se tornar um escritor bem sucedido. É muito influenciado pela sua professora, a Srta. Alexandra Webber, no âmbito educacional e pessoal, pois, além de ser uma amiga conselheira, ela reconhece seus talentos e é a que mais o incentiva para que ele, ainda pré-adolescente nessa parte, não pare de escrever.
Em primeira pessoa, a narrativa do livro alterna os capítulos entre dois períodos da vida do protagonista: a do passado mais distante, que se desenrola linearmente, e mostra os eventos que vão culminar à cena representativa dos capítulos nos quais Joseph, já um homem adulto, está num quarto de hotel em que acabara de ocorrer uma troca de tiros, na cidade de Nova York. Um corpo ensanguentado de outro homem também está presente no local. Nesse aspecto, as reflexões do personagem de acordo com a situação descrita remetem a um sentimento de culpa e, ao mesmo tempo, resignação pelo que sua vida representou até aquele momento.
No outro contexto já citado do Joseph de 12 anos, a ambientação começa no ano de 1939, em Augusta Falls, um município rural na Geórgia, sul dos Estados Unidos. Para criar uma interligação com a realidade da época, o autor faz um paralelo dos acontecimentos regionais da ficção com os eventos da Segunda Guerra Mundial, o que contextualiza os personagens aos assuntos ligados aos impactos políticos, sociais e econômicos da guerra por meio de diálogos dos quais envolvem as notícias que chegavam ao local.
O ponto principal da história do livro inicia quando uma de suas colegas de escola é assassinada brutalmente. A partir daí, começa uma série de crimes que envolvem meninas estupradas e mortas por um suposto serial killer - o perigo e o mistério da situação se tornam fatores de assombro na vida das pessoas daquela cidade por anos. E isso vai afetar diretamente a existência de Joseph e de entes queridos, o que causa profundos impactos psicológicos nele, moldando seu caráter e personalidade.
Alguns dos estupros são descritos de forma literal e seca, o que causa certo desconforto e angústia ao ler. Essa característica da escrita de Ellory mexe essencialmente no emocional do leitor. A ânsia por justiça e pela revelação do assassino nos envolve tão veemente quanto ao Joseph.
Na história, as consequências dos assassinatos revelam a natural desconfiança e tendência à atitude injusta dos seres humanos em comunidades fechadas, em que predomina a intolerância à diferença.
Apesar de ter um desenvolvimento lento e repetitivo (a sensação é a de que o livro poderia ter umas cem páginas a menos), a leitura prende não só pelas suposições e reviravoltas, mas principalmente pelo teor poético que expõe a extrema sensibilidade do autor quanto às questões humanas. Justamente por isso, não há muita descrição de cenário ou características mais objetivas, pois o enfoque é mais introspectivo pela ótica do personagem principal.
Aliás, ele carrega toda a carga dramática do enredo. O autor propositalmente escreveu uma história em que mostra como alguém pode sobreviver às piores dores - físicas e sentimentais - e, mesmo assim, ainda prosseguir.

“Não sei como alguém pode suportar perder tanta gente e ainda acreditar na bondade fundamental do ser humano.” p. 432

Joseph observa e passa por tantas desgraças durante a narrativa que chega um momento no qual podemos pensar que nada de bom vai durar para ele. Isso faz com que o livro seja excessivamente triste e pesado.
Mas, ironicamente, esses fatores não tiram a beleza da obra. O argumento principal do livro como um todo é, justamente, a compreensão de que não há sentido na vida sem as dores, a angústia, o sofrimento. É aquele clichê de que não conhecemos o valor da luz sem antes passar pela escuridão. Por esses aspectos, esse livro se consolida como uma ode à melancolia.

“Talvez alguns de nós voltem... talvez alguns de nós tenham aprendido o bastante para fazer uma diferença, para influenciar as situações para melhor... para ficar observando... para esperar a hora certa e depois agir. E apesar das aparências, apesar de todas as indicações em contrário, apesar da reserva por medo do que os outros pudessem pensar, eu ainda sentia que todos nós tínhamos aquela crença silenciosa...” p.371

Vejo esse livro como uma homenagem àqueles que creem em anjos - não necessariamente o ser iluminado com asas de ave, mas sua simbologia: o anjo como uma forma imaterial da esperança. O anjo como o ícone da superação.
Por todas às vezes que cremos em anjos - silenciosamente ou de maneira gritante, tanto faz -, essa obra merece ser lida.



Ficha técnica

ELLORY, R. J. Uma crença silenciosa em anjos.

Título original: A quiet belief in Angels
Nº de páginas: 446
Editora: Intrínseca

Preço: R$ 39,90

Leve-me às estrelas

por Matheus Campos

            O príncipe acordou no meio da noite com um súbito desejo de ir às estrelas.
Estava deitado e nu debaixo dos galhos de uma grande árvore com raízes antigas. Nu, pois queria o contato cru com a natureza guiado pelo intuito de sê-la, pois ele era.
Ele olhava para as estrelas com um interesse genuíno de conhecê-las e, quem sabe, falar com elas. Achava que talvez pudessem ser intercedentes de um Deus do qual tanto procurava. Aliás, ele mantivera uma relação com esse Deus por muito tempo; o contato entre eles era por meio de cartas - sim, o príncipe frequentemente escrevia cartas a Ele (ou ao universo, ou à natureza, ou ao nada: a definição não cabe a mim).
Ele fazia isso com uma convicção estranha, pois foi lhe ensinado há muito tempo que Deus é onipresente. Mas, ainda sim, o menino tinha a necessidade de exorcizar seus pensamentos, súplicas, agradecimentos e temores por meio da escrita. Ele sempre esperava por uma forte ventania como um sinal do céu. A força do ar era, por falta de palavra melhor, o correio, e o rumo dos ventos levaria suas palavras no papel a um suposto poder superior.
 Eis uma certeza inabalável: receberia uma resposta, cedo ou tarde, com um porém: não em palavras escritas.
Mas, dessa vez, observando as estrelas, o príncipe já não tinha vontade de escrever. Queria mais. O desejo era de estar cara a cara com o seu criador. Desejava chegar aos céus por si só, pois estava cansado do mundo terreno.

Caros leitores, agora cheguei a um ponto da história em que não posso mais narrar de maneira onisciente. A partir de então, para que vós entendais melhor os pensamentos dele, serei o príncipe. Permita-me infringir o próprio espaço-tempo.

Não, por favor, não tente me adequar. Não espere nada de mim: deixe-me ser.  Quero ser levado como se eu fosse o próprio vento que embala minhas palavras ao divino. Estou cansado. Oh sim, estou realmente cansado.
Será que perdi a fé nos homens? Fatigo-me da gravidade e de tudo que é real. Quero o não-visto. Desejo a irrealidade que de tão profunda se torna uma nova realidade.
Disse isso aos poucos amigos que confio e já me arrependo das palavras ditas, mais até do que aquilo que nunca foi dito. Mal finalizei e pela reação não desejada tentei me justificar: não, não é bem assim, me deixa explicar melhor. Pra quê? Quero a compreensão ou a aceitação? Não quero.
Quantas vezes desisti de partes de mim por outrem?! Quantas vezes fugi de olhares e palavras, não por covardia, mas para que no desencontro eu busque a mim novamente e, consequentemente, a eles?!
Mas, apesar de tudo, há o bom: zombo deles por serem céticos. A arrogância daqueles que não acreditam em almas por não terem encontrado as suas.
Sendo assim, torno-me arrogante também? Talvez sim. Sei que não sou comum - quem dera eu fosse.  Que Deus me perdoe, mas há momentos em que eu preferiria ter nascido um comerciante pobre a um príncipe cheio de luxos.
Ainda há o fato de que preciso socializar. Relacionar-me aos outros.
Mas é justo que isso, ao invés de complementar, subtraia um pouco da minha humanidade?
Por considerar certos fatores insípidos em minha vida, já não me quis. Por isso, procurei alguém para dar o que vivi e, por puro egoísmo humano, quis o que o outro vivia também.
Louco, vá se tratar, eles diziam. Eu nunca fui louco: sou único. Mas não digo que sou original. Sou demais a cópia da cópia para me tratar com exclusividade. Em suma, sou o sangue, a carne, e, também, as emoções, as chagas, os princípios.
É-me aprazível ser.
Percebo a compreensão que adquiri. É ignóbil adentrar na intimidade de alguém e julgá-la. Não há a resolução no alheio, somente em nós mesmos, pois o redemoinho dos sentimentos de cada um é perigoso. Não queira o todo separando fragmentos. Não queira o melhor sem o pior. Não queira a compreensão plena sem antes passar pela confusão.
Sei disso porque já lidei com a grosseria e fui ferido, assim como lidei com a sensibilidade e também feri.
Já amei ao ponto de querer possuir. Já odiei ao ponto de querer dizimar. Qual desses é mesmo o amor ou o ódio? Ou nenhum dos dois? Os dois. Inexplicavelmente ambos se alimentam da mesma raiz.
Essas palavras talvez já sejam exploradas nas mentes de muitos e entendidas nos corações de poucos. Clichês, como a rotina, as escolhas, a vida em si. Até o mais complexo é simples, porque até o diferente se torna igual.
Não sou nem quero ser sozinho. Apesar de ser amigo do silêncio, temo imensuravelmente a solidão. Eu não preciso deles e, arduamente, preciso.
Mas agora, estou cansado.
Entrego-me, portanto, ao destino de seguir às estrelas.
Agradeço antes aos céus por todo o sofrimento.
Sou grato pelas desuniões, desamores e até pelos fatídicos encontros.
A felicidade da luz só foi encontrada ao passar pelo túnel escuro de meus dissabores.
Sim, agora eu posso ver com clareza. Mais do que isso: estou sendo.
E, então, queimo com toda a força. E brilho.
Brilho cada vez mais.
Já não preciso mais me encontrar com as estrelas, pois me tornei uma.
Encontrei Deus em mim.

 


segunda-feira, 13 de julho de 2015

O artista

por Matheus Campos

Rufem os tambores

- Senhoras e senhores,
Apresento-lhes com muito orgulho (e certo pesar) o Artista!
Por favor, aplausos!

...

Silêncio.

Nota intermediária do narrador: apesar de ser denominado como Artista, ele não domina necessariamente nenhuma arte. Não sabe pintar, poetizar, cantar e nem mesmo dançar. Ele está paralisado e seu único talento é sorrir de vez em quando.
 Ora, mas o que então faz dele um artista?  - questão levantada pelo leitor.
Resposta do autor: Ora, o que então faz de você um ser humano?

Voltemos.
Após a apresentação, o Artista se prostra timidamente no palco de madeira carregando um balde cheio de tinta. Não consegue enxergar o público, pois o negro sonda sua visão – o que não impede de fazer o seu show, que na verdade não é espetáculo nenhum.

Primeiro ato: o balde é posto no palco. Sua mão direita delicada e de dedos magros é afundada na tinta.  Ao sair de lá, ela está branca e, por conseguinte, ele passa a pintar sua própria face, sem nenhuma preocupação com estética ou sentido.

Segundo ato: O discurso.
- Dizem que o branco é a paz, o vermelho é a paixão, o preto é o luto, e o verde a esperança; E eu, o que sou? Pinto-me de branco, pois quero a paz - apesar de que minha visão está de luto porque não enxergo mais nada. Sim, afirmo que é por pura opção e, sendo assim, pinto meus olhos também. Não possuo verde em meu corpo, pois o que mais posso esperar? O que me resta? Seguir pintando meu corpo também de branco. Ah, não posso esquecer-me do meu coração que é vermelho, será que consigo pintá-lo também? A paixão é violenta e deixa todo o resto em guerra. Já não a quero mais.

Último ato: o Artista pega o balde e jorra toda a tinta por cima de sua cabeça

Não aguentou: morreu o coitado.
O suave toque da morte pelas cores.

...

Silêncio.

Eis que acontece um milagre: a tinta em seu corpo vai mudando de cor e o falecido, aos poucos, dá espaço à criação de um arco-íris: sem nem ao menos ter tido chuva.
O público, exasperado, aplaude.
O Artista havia dominado sua primeira e última arte – e, sem dúvidas a mais complexa e primorosa:
A capacidade de compreender a dor de dar à vida.
A insanidade pela sanidade.
O último pelo primeiro.
O oposto pelo semelhante.
Continuar o show mesmo com o silêncio.
E, então, entregou-se ao fim para um recomeço.

                                  



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Previsões

por Matheus Campos
Esse caso aconteceu com uma moça precocemente adulta.
Precoce sim, pois, aos 16 anos, ainda desfrutava das regalias da chamada adolescência. Mas, por iminência de sua impressionante maturidade – a qual a tornava mais responsável que outras pessoas de seu tempo -, ela tinha que carregar o peso de uma certeza: apesar de estar presa num corpo jovem, sua alma era antiga. Ao menos ela pensava assim.
Essa moça caminhava intranquila pelo centro de São Paulo – a ausência de uma calmaria no âmago de si mesma se dava por ela ser tensa. Cheia de preocupações. Relaxar? Nunca!
Estava cansada porque o clima era quente, a temperatura atingia a marca dos 35ºC naquela tarde de verão. Havia acabado de sair da escola e precisava chegar a sua casa com urgência, pois também tinha fome.
Eis que a vida lhe acomete de uma surpresa: uma suposta cigana interrompe sua caminhada e oferece a tal “leitura de mãos”. Cigana daquelas que se encontram nas ruas, geralmente vestidas de saias longas e com muitos acessórios femininos de significados esotéricos pelo corpo.
A garota recusou a proposta educadamente e seguiu seu caminho, mas, de longe, a mulher lhe gritou:
“Você terá um encontro com a morte hoje”.
O grito constituiu uma situação de abuso.
Aquelas palavras agrediram-na de uma maneira desagradável. Por um breve instante, até esqueceu-se de que não tinha medo da morte e não acreditava em futuro. Para ela, o ‘amanhã’ não existe. A vida acontece no gerúndio. O pressuposto de que tudo está acontecendo e nunca vai acontecer.
Mas o prognóstico da mulher, falso ou não, fez com que a menina seguisse adiante para seu destino com uma imorredoura preocupação daquilo que se é definitivo: a morte. O encontro. Tão cedo?
Em minutos de passos pesados, chegou em seu lar.
Após se alimentar, resolveu ler sentada no jardim. O livro era “A hora da estrela” de Clarice Lispector.
De repente, outra surpresa (aquele dia estava cheio delas): Observou uma abelha no seu antebraço. Por seu medo desmesurado de abelhas, sem pensar, movimentou-se de forma brusca com objetivo de tirá-la de lá.
Sentiu a dor do ferrão.
O famigerado ferrão que a abelha deixa ao atacar e, posteriormente, morrer.
Ela quase chorou, mas um estalo em sua mente fê-la perceber uma delicada coisa: a cigana estava certa. O encontro com a morte aconteceu.
Irônico pensar no carma das abelhas – talvez tão condizente quanto o dos seres humanos.
Mas, apesar dessa inesperada confirmação, a garota não podia acreditar em previsões.
Sabia que tinha várias preocupações enclausuradas pelo medo, pois esse medo justamente se tornava maior pela inconsequência das surpresas. Inevitáveis, mas, ainda sim, inconsequentes. Ou apenas consequentes como os fatos que acontecem no gerúndio da vida. Isso é cabível de compreensão?
Previsões são inúteis, pois, afinal, não houve previsão para o encontro da cigana que a desestabilizou naquela tarde; e, muito menos, para o adiamento daquela prova para qual ela estudou arduamente no fim de semana pensando que estava com o prazo apertado; e quem dirá o beijo que recebeu do menino do qual pensou que a odiava...
Não é possível prever a importância que as pessoas passarão a ter. Nem os dissabores que uma situação nova pode proporcionar.
Apesar de garantir uma segurança maior, o previsível no cotidiano causaria um incômodo mais medonho que a única certeza absoluta: a morte e, principalmente, mais angustiante que o próprio desenrolar natural da vida.
Após tirar o ferrão, com uma tranquilidade que antes não possuía, a menina voltou a acompanhar a história de Macabéa no livro.
Uma última surpresa sarcástica: a personagem estava prestes a ter um encontro com uma cartomante.





domingo, 14 de junho de 2015

Memórias de um corpo sem destino

Por Matheus Campos


A criatura surgiu na terra como o mistério das coisas.
Seu objetivo era único: transfigurar em pessoas com diferentes vidas até encontrar um propósito. Independente de gênero, raça ou estratificação social.
Para isso, em uma dimensão paralela à que nos é perceptível, o ser caminhou em busca de alguém para se acolher e, sendo assim, for capaz de adentrar no mundo conhecido e habitado por nós.
Por quem começar?
Talvez pela ingenuidade da infância. É gostoso começar por um falso início mesmo sabendo que só o fim justifica tudo.
Adaptou-se primeiro a um menino com sonhos inocentes, tais quais construir uma casa na árvore ou sair voando de balão.  Apesar de um pouco tímido, sabia ser bem brincalhão, e estar nele era divertido. Uma das suas maiores alegrias era a de estar confortável no carinho materno, pois sua mãe se mostrava sua maior companheira. 
O problema é que a criatura não coube lá por muito tempo. Teve que assassiná-lo pelo mal inevitável de todas as crianças: o desejo e, enfim, a consumação de tornar-se adulto.
Voltou a demudar para o inócuo e a caminhar no vazio alheio ao caos da terra. Não tardou até encontrar uma adolescente virgem - ela foi a nova escolhida naquele momento.
Foi uma experiência interessante ser uma garota bem religiosa, moldada aos ensinamentos do cristianismo. Carregava pudores e medos condizentes com os que sua amada família lhe impôs. Tinha metas simples na vida, como encontrar um homem bom e trabalhador para que, posteriormente, casasse e tivesse filhos. Também se concentrava nos estudos, pois, profissionalmente, queria se tornar uma professora.
Sua perdição foi quando entrou em conflito com seus próprios valores: apaixonou-se pelo marido de uma amiga. Um homem bem mais velho que provocava nela desejos impuros e sonhos com situações imorais.
Para se proteger do suicídio, essa não durou muito.
A próxima também foi uma mulher. Dessa vez, uma princesa rica e inteligente, porém completamente fascinada por amores românticos.
Sempre sonhou em encontrar um príncipe perfeito. Alguém belo e encantador que a fizesse se sentir realizada.
Por sorte, ou ironia, ela encontrou esse príncipe supostamente perfeito.
Viveu com ele todos os ideais de um casal. Toda a paixão flamejante que incendeia os corpos de ambos. Os encontros, os beijos, os olhares penetrantes.
Além de todos os sonhos uniformes que iludem ao fazê-los pensar que o ‘felizes para sempre’ é algo crível.
Ela o considerava como o grande amor de sua vida - uma espécie de alma gêmea. Toda essa concepção levava ao apego. A vontade de estar o tempo todo juntos. O desejo dele e de mais ninguém. 
Eis que ela descobre uma traição. 
O seu amado príncipe vivia outro romance (ou outros, quem sabe). Tinha desejos e ambições com uma mulher que não era ela.
Não podia suportar aquilo jamais! Era cruel demais e não havia como perdoar ou haver qualquer forma de conciliação, pois aquilo era a perda de algo que ela pensou ter posse. Era o orgulho sendo ferido. 
Por fim, não tinha mais espaço para se ocupar na princesa – antes apaixonada, e agora desiludida. 
Cansado de meninas com limitações emocionais e físicas, quis ser um homem  ou uma mulher bem resolvido(a). 
Portanto, antes de incluir-se em um escolhido, observou-o.
Era um dançarino. O típico cara extrovertido e desapegado, apaixonado por folias e promiscuidade. 
Considerado a ovelha negra da família por ser homossexual, tinha alegria em viver por desfrutar de uma alma livre. Sem muitas ambições de futuro, vivia os momentos intensamente e não estava nem aí para padrões de relacionamentos. Não se preocupava com opiniões alheias. 
Aquele arquétipo chamou a atenção do ser que o observava.
Só que a vida lhe acometeu de uma surpresa.
O homem fora assassinado por consequência de simplesmente ser o que era.
Mesmo sem possuir sentimentos, o ser vagante quis, de alguma forma, justiça.
Portanto, por não ter tido a possibilidade de adentrar no assassinado, seu próximo corpo foi um assassino.
Um rapaz pobre e acometido por vários sofrimentos provocados por pessoas que o machucaram. Esse guardava um enorme rancor de pessoas mesquinhas e preconceituosas. Seu objetivo era pagar na mesma moeda por todo o mal que lhe fizeram.
Mas teve um porém: ele descobriu que a vingança era um tipo de veneno. O assassino, dessa forma, também era de si mesmo. 
A criatura bem entendeu que não podia se adequar a um mortal que queria por fim na vida de outros.
Estava perdendo a esperança nos propósitos dos seres humanos e, por isso, decidiu que o próximo seria seu último corpo.
Procurou uma autoridade absoluta.
Tornou-se um rei.
Mas, nesse caso, ele se esqueceu de sua condição humana. O engrandecimento do ego e a conquista do poder corrompeu-o por inteiro.
A sorte é que tudo na vida é finito. Então, no momento certo, livrou-se dele.
Em sua última forma, aquele ser não identificável tomou as características de um anjo – ou um demônio, não é do nosso feitio definir com clareza.
Refletiu sobre tudo que passou enquanto se modificava por personalidades humanas. 
O inevitável karma. 
Talvez não haja qualquer salvação que seja, eternidade ou plenitude. Afinal, para quê?
Difícil compreender o propósito dos propósitos. A verdadeira significação de tudo.
 Isso se for cabível de ser compreendida. 
Agora, o anjo, que também já foi uma criança, uma virgem, uma princesa, um dançarino, um assassino e um rei, passa essa mensagem a mim, o escritor.
Escrever é mais simples, pois falar tem sido tão difícil...
A fala carrega o peso imaterial da vida e às vezes não transmite de maneira tão clara o que se quer passar. 
Enfim, vos escrevo por isso.





sábado, 30 de maio de 2015

Devorados pelo tempo

Por Matheus Campos

Há uma sina que todos nós, condenados à condição humana de existência, carregamos desde a infância - o simples ato de esperar. Eis uma experiência que prova minha declaração: buscar na memória a sucessão de eventos que ocorreram no passado de nossas vidas. Como uma espécie de 'flashback'.
Sei que, para todas as pessoas, há recordações atreladas à espera. Aos cinco anos, uma criança espera o jantar preparado pela sua mãe; Aos quinze, uma adolescente espera pela mensagem no celular do primeiro namorado; Aos trinta, um homem no hospital espera angustiado para saber se seu pai vai sair vivo ou não da UTI...
Em todas essas situações, o tempo se torna quase como um inimigo. Cada minuto representa uma dúvida, cada hora representa uma eternidade. Somos, ao mesmo tempo, destituídos e constituídos pela vida.  Criação e destruição separadas por uma linha tênue.
Há um quadro, pintado pelo artista Francisco de Goya, chamado 'Saturno devorando um filho', o qual mostra um monstro gigante literalmente comendo seu suposto filho. Saturno, segundo a mitologia grega, representa Chronos como o criador do tempo. Já o filho devorado representa a nós, seres humanos. Não há como fugir - é um aprisionamento.
A vida incendeia o espaço e nessa medida somos queimados pelas labaredas dos dias. Seguimos dançando no calor do fogo que arde a cada passo dado a um futuro inexistente.
 Estamos sempre esperando pelo tempo, e ele sem nunca esperar ninguém.

                                

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O telepata

  Por Matheus Campos

Em plena madrugada, o telepata andava apressadamente pelas ruas de São Paulo. O clima estava frio e ele sentia gotas d’água tocar sua pele delicadamente, as quais caíam de uma garoa fina e insistente.  Desejava chegar a sua casa o mais rápido possível.
A sua necessidade de reclusão se dava pelo tempo que não tivera para dedicar a si mesmo, pois os pensamentos dos outros o atordoavam. Amaldiçoava os deuses por terem lhe dado esse dom. Como poderia viver tranquilamente ao levar consigo o processo mental das pessoas? E, sendo assim, carregava os desejos, as amarguras, as complexidades dos outros. O pensar impulsivo que amarra aquilo que sentimos, constituindo as posteriores ações ou paralisações.
O telepata tinha a sina de saber dos erros não verbalizados daqueles que estavam próximos. O arrependimento de algo que nem se concretizou. E o arrependimento também por não ter se concretizado - há tantos pensamentos que poderiam transformar realidades com o simples ato de falar... E ele não podia fazer nada a respeito, pois certamente as atitudes (ou falta) de outrem não lhe eram convenientes.
O que mais causava dissabor no pobre rapaz eram os pensamentos a respeito dele. O julgamento. As percepções que ele mesmo não tinha - boas e ruins. O ponto positivo disso era o fato de que ele, mais do que qualquer um, sabia da incapacidade das pessoas de se adaptarem aos caprichos dos outros. É inexequível para todo ser humano.
O telepata necessitava arduamente de forças para lutar na guerra de si mesmo. A dificuldade maior vinha da fraqueza dele por estar a par das batalhas internas de cada um.
Compreendeu que pensar demais enlouquece e pensar de menos emburrece. As reflexões se extinguem na vida pelo incêndio que cria as labaredas das sensações.
Ah, como sentia falta do que nunca teve: o prazer do silêncio. A tranquilidade do inócuo.
Entristecia-se pela inexistência do vácuo desejado.
Seguiu caminhando com pressa na busca do lar que o acolhe. A chuva ficou mais forte – como um recado irônico dos céus aos seus passos. 



                                      

terça-feira, 12 de maio de 2015

"Ele vê tudo"

Por Matheus Campos

Era uma típica noite de domingo e Bruno se preparava para ir ao culto, como de praxe. Naquele dia ele não estava se sentindo muito bem, pois fortes dores pelo corpo o acometiam. Pensou em não ir à igreja por conta disso e quase impediu a si mesmo de sair de casa, mas uma voz interior reprimia essa sua vontade de repousar. Afinal, aprendeu que domingos sempre são especialmente dedicados ao Senhor.
A voz que ecoava em sua mente era a de sua mãe, algo como uma intervenção; Um alerta do Deus em que crê. “Ele vê tudo Bruno. Se sente dor, tenha fé que Ele vai te curar”, disse ela quando ele demonstrou seu desejo de permanecer em casa. Além do mais, acreditava que o pesar físico que sentia era uma espécie de castigo pelos seus pecados. “Ele vê tudo”.
Sua ida ao local denominado como a “casa do Senhor” foi movida por medos. ‘Mea Culpa’. Caminhou carregando um remorso inconveniente. Seus passos eram lentos, não tinha muita pressa de chegar lá. Sabia que Priscila, sua namorada, o encontraria em frente ao portão.
Queria evitá-la devido à última conversa que tiveram, a qual tinha como tema principal o sexo. Claro que, pelos dogmas da religião, havia um consentimento de transarem somente depois do casamento. O único entrave era que ele, aos 19 anos, não queria pensar em se prender a alguém. Já estava farto de prisões.
Frequentemente se masturbava em casa. Isso começou há mais ou menos três meses, pois antes se proibia até mesmo ao impulso da ereção. Mas à medida que seu namoro se prolongava, aumentavam os seus fortes desejos eróticos – e, ironicamente, não por ela. Portanto, discretamente costumava ir ao banheiro nas madrugadas e fazia o ato com seu pênis.
 Tentava não causar muito barulho pelo fato de que sua mãe o sondava. Tanto que uma vez o flagrou no próprio quarto e ficou atônita. Ele, mais ainda. Era um misto de vergonha e temor – a ela e a Deus. Após esse fatídico evento, o único recado da mãe a ele foi composto pelas mesmas palavras que o apavoram de maneira incessante: “Ele vê tudo”.
Bruno chegou ao local e Priscila ainda não estava lá. De pé, encostou-se no portão de ferro frente à igreja e ficou quieto, refletindo. As dores ainda eram um incômodo permanente. Sem contar a angústia causada pelas preocupações do dia a dia: trabalhos de faculdade, pendências no serviço...
As pessoas em geral o consideravam como o cara perfeito. Cursava letras em uma instituição federal e rapidamente conseguiu estágio em sala de aula num colégio particular. Bom filho, bom profissional, bom estudante e, principalmente, uma boa pessoa. Temia que só não fosse bom em dois pontos: namoro e religião.

Condenava-se por ser um ‘fiel’ que, longe da comunidade cristã, ia contra os preceitos da bíblia. Reprimia-se fervorosamente por ser quase noivo de uma mulher e não sentir muita atração por ela. Seus desejos e imaginação se voltavam para outras vertentes. Aliás, Bruno não se aproximava muito de homens justamente por motivos de cautela.
Priscila chegou à igreja com atraso de 15 minutos do combinado. Sua desculpa era por estar ensaiando – era cantora e pregava com suas canções. Eles se cumprimentaram com um beijo nos lábios e adentraram na igreja.
Sentaram-se no primeiro banco de madeira e ficaram de mãos dadas, silenciosos. Cada fiel que se aproximava deles era recebido com o cumprimento “A paz do senhor”. O culto começou exatamente às 19h45min.
Conforme o tempo passava, ele se sentia cada vez mais fora de si. Em nenhum momento prestou atenção no que o pastor falava. Sentia as dores. Pesavam os seus medos. A presença da sua dor de viver era constante, pois a força maior das convenções sociais o pressionava. 
Tentou gritar, não conseguiu. Tentou correr, paralisou-se. Queria somente libertar-se dessa repressão vil de alguma maneira. A repressão, diga-se de passagem, se dava pela música que o proibiam de escutar, pela tatuagem que nunca pôde fazer, pelos desejos que não pode ter, pois a religião em que foi condicionado desde a infância impusera isso. Bruno não odiava os dogmas ou os fiéis. Respeitava tudo e a todos. Odiava somente a contradição de estar preso a uma tortura proporcionada por ele mesmo.
Sentia-se cada vez mais apertado por todas essas pressões. Tenso. Precisava de alguma forma se libertar disso, caso contrário ficaria louco.  Portanto, o fez da maneira mais natural para um ser humano:
Soltou um baita peido fétido e barulhento.
A leveza dele e o desconforto de outros foi, até então, seu maior protesto contra situações em que sempre se via numa situação exatamente oposta.

Ninguém poderia imaginar quem foi o responsável pelo impressionante pum. Como diz sua mãe, só ele mesmo e Deus poderiam saber, afinal, “Ele vê tudo”.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Nascimento incongruente

por Matheus Campos


Passaram-se nove meses desde a última vez que Clara entrou em conflito com a sua sanidade.
Comumente, o mesmo tempo de gestação de uma grávida.
Irônico, pois ela, apesar de há tempos não ter relações sexuais, sentia-se exatamente dessa maneira: como se estivesse carregando algo dentro de si - análogo a um feto que cresce dentro da barriga. 
E então, finalmente, chegou a hora de fazer o parto.
Clara vai dar à luz - mesmo sem nunca ter encontrado saída para a sua escuridão, a não ser pelo próprio nome.
Aliás, antes de mais nada, é preciso ressaltar que há um medo desmesurado durante esse processo...
Não, não é o medo natural que uma verdadeira grávida poderia ter, é algo maior. 
Clara está prestes a dar vida a algo que ela nem sabe o que é. E, certamente, não é outro ser vivo.
No seu quarto, ela está nua, à deriva. Esperando a hora. Sempre esperando...
Seu estado é deplorável. Está aparentemente triste e sentada na beirada da cama diante de suas roupas sujas jogadas no chão. O cheiro da fumaça do cigarro impregnado nelas é tão repugnante quanto o vômito que deixou no banheiro daquele bar. E a repulsa, ironicamente, não é pelo aroma do tabaco.  As circunstâncias dos fatos daquele fatídico contato com sua natureza ébria fedem mais. 
Não cabe a mim entrar em detalhes do que lhe aconteceu. Só posso dizer que envolve fraquezas e, principalmente, sentimentos profundos. Confusos, mas todos filtrados com a mesma intensidade.
Às vezes ela pensa que é bipolar.
Tripolar;
Quadripolar.
A vida - e por dizer 'vida' remeto à sociedade, aos moralismos, às relações humanas - faz com que ela se sinta cada vez mais isolada e desamparada. Os rótulos causam angústia. As buscas incessantes.
Não sabe onde se encaixa. Ou se é cabível de encaixar em algo. 
Por vezes feliz. Outrora infeliz. Feliz. Infeliz.
Felizinfelizfelizinfelizfelizinfelizfelizinfeliz.
Assim segue o ciclo, quase como num loop eterno.
Ela não sabe mais o que quer, somente tem a compreensão do que não gosta. Ela vê. Ela teme. Ela deseja. 
Ela.
Em instantes, vem a autopercepção do seu egoísmo.
A naturalidade do ser.
A verdade é única: Tudo que ela fez consigo mesma tinha mais a ver com fragmentos inúteis que não ajudam a constituir o todo. Algo como tentar montar um quebra-cabeça com peças que não se conectam.
Seu quarto está imerso sob uma penumbra, mas com um simples ato, Clara o ilumina por inteiro. 
O parto acontece sem a ajuda de ninguém e nessa hora acontece o milagre mais surpreendente:
O ser humano faz nascer a si mesmo.

A vida morre e concebe outra - não um bebê e nem mesmo uma outra mulher, apenas vida.








sexta-feira, 6 de março de 2015

A complexa arte de viver



por Matheus Campos

Foi em uma manhã tranquila, sem o ardor das expectativas de ter um dia esplêndido, que recebi a dádiva de uma importante descoberta de vida.
O sol acabara de nascer, e eu andava pela praia de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo. Buscava alguma coisa simples naquela caminhada, mas não sabia exatamente o quê inicialmente. Só depois fui entender.
Em um momento de cansaço, sentei-me à beira do mar e pude sentir a suave brisa me tocando. Nesga de areia entre minhas mãos esvaíam pelos meus dedos e o vento levava embora cada grão. Por um instante, compreendi que o meu estado de espírito estava em sintonia com a leveza do ar. Era um processo de readaptação. O sagrado silêncio predominante me permitia escutar a música da natureza – a poesia de viver, a melodia do sentir.
Observava de longe marolas tornando-se ondas tempestuosas; a brisa às vezes tornava-se uma forte ventania. Comparei-me a essa natureza inconstante: assim como ela, sou efêmero e imprevisível.
Quem dera apenas se eu compreendesse os mistérios do oceano tal qual tão profundo quanto minha alma... mas há a minha pequenez humana diante de tamanha imensidão. Ou talvez não haja mistérios a serem desvendados. Afinal, há tempos aprendi que o segredo de viver é não ter segredos nenhum.
E há somente duas coisas nesse ato explícito de viver que me impressionam na mesma medida que me assombram: o ser humano e a arte. Hoje, o que considero mais belo é a ligação inerente entre elas, pois parte da importante descoberta que tive naquele dia foi justamente a respeito disso. Por um tempo pensei em guardar o que descobri como segredo, mas decidi que vou contar. Singelamente vou contar.
 Claro que há um tom muito subjetivo na minha seguinte afirmação, mas o meu ponto de vista me permite ver isso de uma maneira universal:
Todos nós somos artistas.
Essa percepção se torna mais clara quando temos a certeza de que viver é uma simples arte. Assim como amar – a mais primorosa e complexa manifestação artística que existe.
As manifestações são ligadas a atividades de ordem estética, conduzida por nós – seres humanos e artistas – a partir de nossas percepções, emoções e ideias únicas que pretendem atingir, de maneira sensível e/ou tangível, os nossos espectadores. Tudo o que fazemos são obras de arte com diferentes significados.
Foi justamente o meu contato singular com a natureza naquela manhã que me fez perceber isso. O modo como sinto, vejo, caminho... A minha humanidade, interligada aos outros, é bela. Respiro a arte.
Encanto-me veemente com essa beleza. Aliás, uma das coisas que mais me agrada em qualquer atividade artística é quando há paixão imposta nela.  Por natureza, considero-me extremamente lírico e sentimental. Portanto, a sensibilidade do meu ser faz com que eu tenha o dom dos poetas, dos filósofos e dos romancistas. Consigo enxergar literatura em cada situação nova que me acontece. Faço pinturas imaginárias em minha mente, e geralmente o que me permeia é abstrato.
Poético como sou, é claro que tenho fascínio por romance e suas vertentes. Tenho gosto por expressões do tipo em músicas, livros, filmes e principalmente no dia-a-dia. Possuo meu próprio significado para o amor, e posso afirmar que só me conquista aquele que é profundo. Intenso. Não gosto de pessoas e sentimentos rasos - sempre mergulho fundo no misterioso oceano dos meus sentidos. Embora eu saiba que corro o risco de me afogar.
Ao falar de amor, arte e literatura, sempre me vem a mente o livro ‘Coiote’, do mestre Roberto Freire. Conheci o título através da leitura de uma excelente crônica, escrita por uma amiga - sensível e fascinada pelo amor como eu.
O livro tornou-se o meu favorito por abordar, de maneira insana e um pouco utópica, tudo o que penso e sinto a respeito do amor, do prazer e da liberdade. Sem contar o delicioso tom anarquista presente nele e a loucura dos personagens (deve ser realmente lindo falar com duendes e fazer sexo com a natureza). Em suma, instiga as nossas percepções sobre as perplexidades das relações humanas.
Só pude comprá-lo ao requisitar em um sebo de Santo André, pois é muito difícil de encontrar à venda. Como todos os livros que compro em sebos, este veio com características próprias marcadas pelo antigo dono. Porém, meu exemplar de ‘Coiote’ tinha uma particularidade em especial: em uma das páginas tinha um pequeno papel amarelo com as seguintes palavras:
Procurei Deus e não o encontrei;
Procurei a mim e não me achei;
Procurei o próximo e encontrei os três;
Nenhum ser humano é autossuficiente, todos nós precisamos dos outros para sermos nós mesmos.”

Achei curioso e de início pensei que tinha algo a ver com o livro, mas era apenas um papel aleatório que me fez refletir. Por instinto, acabei lendo parte do conteúdo que tinha nas páginas em que se encontrava o papel. Não vou revelar muito do livro, mas em algum ponto tinha o seguinte trecho, do qual contrastava com as palavras transcritas no papel amarelo:

"Cada pessoa precisa encontrar toda a capacidade de viver em si mesma."

É até irônico ver as diferenças entre as citações que se apresentaram a mim naquele instante. Conduziu-me a uma estranha crise de existencialismo que durou uns 20 minutos.
Concluí que talvez a verdade se aproxime no equilíbrio entre ambas as afirmações.  Como já disse, viver é uma arte e os seres humanos são artistas – e isso muitas vezes pode ser demasiadamente perigoso, tanto individualmente quanto no coletivo.
Afinal, humanizar é relacionar-se. Abrir-se ao outro.
Eu, particularmente, tenho certa dificuldade com relacionamentos em geral justamente por conta do meu medo do outro e, principalmente, do assombro de mim mesmo. Confiar plenamente é primordial e, ao mesmo tempo, praticamente impossível.
Os poucos romances que vivi, por exemplo, ressaltou esse meu medo. Já tive casos em que respondi um ‘Eu te amo’ com ‘Obrigado’. Chato, não?! Ou apenas sincero demais. Palavras e sentimentos são importantes pra mim.
Tanto que em outra experiência, já até cometi a loucura de escrever uma carta para conhecer alguém. Às vezes considero tal ato meio boçal e quase me arrependo do que fiz. Mas é como já disse Fernando Pessoa em um dos meus poemas favoritos: “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas."
Desdobraram-se momentos entre eu e a pessoa da qual entreguei a carta. O nosso caso funcionou até certo ponto, mas surgiram as limitações naturais que acarretaram à quebra do contrato – ou aquilo que chamam de namoro.  Mas essa é outra história...
Não há vergonha, nem culpa, pois sei que o risco é sempre parte do destino.
O prazer do sentir e se deixar levar por aquilo que te impulsa a essa sensação é um dos pontos que o livro ‘Coiote’, lido há pouco tempo, me causou mais impacto. Levou-me a um raciocínio: Apaixonar-se pode ter a ver com esquecer. Sim, exatamente isso: esquecer que somos humanos e entregar-se ao sentimento puro, ao desejo, à leveza. Sem a neurose, amar é como flutuar no presente.
E a vida é feita de momentos.
Acredito que cada um deve descobrir o seu próprio modo de amar e de sentir prazer.
Claro que nesse processo haverá dor, mas é uma dor que vale a pena.
A descoberta de si está na deliciosa dor de viver.
De fazer arte.