sábado, 30 de maio de 2015

Devorados pelo tempo

Por Matheus Campos

Há uma sina que todos nós, condenados à condição humana de existência, carregamos desde a infância - o simples ato de esperar. Eis uma experiência que prova minha declaração: buscar na memória a sucessão de eventos que ocorreram no passado de nossas vidas. Como uma espécie de 'flashback'.
Sei que, para todas as pessoas, há recordações atreladas à espera. Aos cinco anos, uma criança espera o jantar preparado pela sua mãe; Aos quinze, uma adolescente espera pela mensagem no celular do primeiro namorado; Aos trinta, um homem no hospital espera angustiado para saber se seu pai vai sair vivo ou não da UTI...
Em todas essas situações, o tempo se torna quase como um inimigo. Cada minuto representa uma dúvida, cada hora representa uma eternidade. Somos, ao mesmo tempo, destituídos e constituídos pela vida.  Criação e destruição separadas por uma linha tênue.
Há um quadro, pintado pelo artista Francisco de Goya, chamado 'Saturno devorando um filho', o qual mostra um monstro gigante literalmente comendo seu suposto filho. Saturno, segundo a mitologia grega, representa Chronos como o criador do tempo. Já o filho devorado representa a nós, seres humanos. Não há como fugir - é um aprisionamento.
A vida incendeia o espaço e nessa medida somos queimados pelas labaredas dos dias. Seguimos dançando no calor do fogo que arde a cada passo dado a um futuro inexistente.
 Estamos sempre esperando pelo tempo, e ele sem nunca esperar ninguém.

                                

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O telepata

  Por Matheus Campos

Em plena madrugada, o telepata andava apressadamente pelas ruas de São Paulo. O clima estava frio e ele sentia gotas d’água tocar sua pele delicadamente, as quais caíam de uma garoa fina e insistente.  Desejava chegar a sua casa o mais rápido possível.
A sua necessidade de reclusão se dava pelo tempo que não tivera para dedicar a si mesmo, pois os pensamentos dos outros o atordoavam. Amaldiçoava os deuses por terem lhe dado esse dom. Como poderia viver tranquilamente ao levar consigo o processo mental das pessoas? E, sendo assim, carregava os desejos, as amarguras, as complexidades dos outros. O pensar impulsivo que amarra aquilo que sentimos, constituindo as posteriores ações ou paralisações.
O telepata tinha a sina de saber dos erros não verbalizados daqueles que estavam próximos. O arrependimento de algo que nem se concretizou. E o arrependimento também por não ter se concretizado - há tantos pensamentos que poderiam transformar realidades com o simples ato de falar... E ele não podia fazer nada a respeito, pois certamente as atitudes (ou falta) de outrem não lhe eram convenientes.
O que mais causava dissabor no pobre rapaz eram os pensamentos a respeito dele. O julgamento. As percepções que ele mesmo não tinha - boas e ruins. O ponto positivo disso era o fato de que ele, mais do que qualquer um, sabia da incapacidade das pessoas de se adaptarem aos caprichos dos outros. É inexequível para todo ser humano.
O telepata necessitava arduamente de forças para lutar na guerra de si mesmo. A dificuldade maior vinha da fraqueza dele por estar a par das batalhas internas de cada um.
Compreendeu que pensar demais enlouquece e pensar de menos emburrece. As reflexões se extinguem na vida pelo incêndio que cria as labaredas das sensações.
Ah, como sentia falta do que nunca teve: o prazer do silêncio. A tranquilidade do inócuo.
Entristecia-se pela inexistência do vácuo desejado.
Seguiu caminhando com pressa na busca do lar que o acolhe. A chuva ficou mais forte – como um recado irônico dos céus aos seus passos. 



                                      

terça-feira, 12 de maio de 2015

"Ele vê tudo"

Por Matheus Campos

Era uma típica noite de domingo e Bruno se preparava para ir ao culto, como de praxe. Naquele dia ele não estava se sentindo muito bem, pois fortes dores pelo corpo o acometiam. Pensou em não ir à igreja por conta disso e quase impediu a si mesmo de sair de casa, mas uma voz interior reprimia essa sua vontade de repousar. Afinal, aprendeu que domingos sempre são especialmente dedicados ao Senhor.
A voz que ecoava em sua mente era a de sua mãe, algo como uma intervenção; Um alerta do Deus em que crê. “Ele vê tudo Bruno. Se sente dor, tenha fé que Ele vai te curar”, disse ela quando ele demonstrou seu desejo de permanecer em casa. Além do mais, acreditava que o pesar físico que sentia era uma espécie de castigo pelos seus pecados. “Ele vê tudo”.
Sua ida ao local denominado como a “casa do Senhor” foi movida por medos. ‘Mea Culpa’. Caminhou carregando um remorso inconveniente. Seus passos eram lentos, não tinha muita pressa de chegar lá. Sabia que Priscila, sua namorada, o encontraria em frente ao portão.
Queria evitá-la devido à última conversa que tiveram, a qual tinha como tema principal o sexo. Claro que, pelos dogmas da religião, havia um consentimento de transarem somente depois do casamento. O único entrave era que ele, aos 19 anos, não queria pensar em se prender a alguém. Já estava farto de prisões.
Frequentemente se masturbava em casa. Isso começou há mais ou menos três meses, pois antes se proibia até mesmo ao impulso da ereção. Mas à medida que seu namoro se prolongava, aumentavam os seus fortes desejos eróticos – e, ironicamente, não por ela. Portanto, discretamente costumava ir ao banheiro nas madrugadas e fazia o ato com seu pênis.
 Tentava não causar muito barulho pelo fato de que sua mãe o sondava. Tanto que uma vez o flagrou no próprio quarto e ficou atônita. Ele, mais ainda. Era um misto de vergonha e temor – a ela e a Deus. Após esse fatídico evento, o único recado da mãe a ele foi composto pelas mesmas palavras que o apavoram de maneira incessante: “Ele vê tudo”.
Bruno chegou ao local e Priscila ainda não estava lá. De pé, encostou-se no portão de ferro frente à igreja e ficou quieto, refletindo. As dores ainda eram um incômodo permanente. Sem contar a angústia causada pelas preocupações do dia a dia: trabalhos de faculdade, pendências no serviço...
As pessoas em geral o consideravam como o cara perfeito. Cursava letras em uma instituição federal e rapidamente conseguiu estágio em sala de aula num colégio particular. Bom filho, bom profissional, bom estudante e, principalmente, uma boa pessoa. Temia que só não fosse bom em dois pontos: namoro e religião.

Condenava-se por ser um ‘fiel’ que, longe da comunidade cristã, ia contra os preceitos da bíblia. Reprimia-se fervorosamente por ser quase noivo de uma mulher e não sentir muita atração por ela. Seus desejos e imaginação se voltavam para outras vertentes. Aliás, Bruno não se aproximava muito de homens justamente por motivos de cautela.
Priscila chegou à igreja com atraso de 15 minutos do combinado. Sua desculpa era por estar ensaiando – era cantora e pregava com suas canções. Eles se cumprimentaram com um beijo nos lábios e adentraram na igreja.
Sentaram-se no primeiro banco de madeira e ficaram de mãos dadas, silenciosos. Cada fiel que se aproximava deles era recebido com o cumprimento “A paz do senhor”. O culto começou exatamente às 19h45min.
Conforme o tempo passava, ele se sentia cada vez mais fora de si. Em nenhum momento prestou atenção no que o pastor falava. Sentia as dores. Pesavam os seus medos. A presença da sua dor de viver era constante, pois a força maior das convenções sociais o pressionava. 
Tentou gritar, não conseguiu. Tentou correr, paralisou-se. Queria somente libertar-se dessa repressão vil de alguma maneira. A repressão, diga-se de passagem, se dava pela música que o proibiam de escutar, pela tatuagem que nunca pôde fazer, pelos desejos que não pode ter, pois a religião em que foi condicionado desde a infância impusera isso. Bruno não odiava os dogmas ou os fiéis. Respeitava tudo e a todos. Odiava somente a contradição de estar preso a uma tortura proporcionada por ele mesmo.
Sentia-se cada vez mais apertado por todas essas pressões. Tenso. Precisava de alguma forma se libertar disso, caso contrário ficaria louco.  Portanto, o fez da maneira mais natural para um ser humano:
Soltou um baita peido fétido e barulhento.
A leveza dele e o desconforto de outros foi, até então, seu maior protesto contra situações em que sempre se via numa situação exatamente oposta.

Ninguém poderia imaginar quem foi o responsável pelo impressionante pum. Como diz sua mãe, só ele mesmo e Deus poderiam saber, afinal, “Ele vê tudo”.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Nascimento incongruente

por Matheus Campos


Passaram-se nove meses desde a última vez que Clara entrou em conflito com a sua sanidade.
Comumente, o mesmo tempo de gestação de uma grávida.
Irônico, pois ela, apesar de há tempos não ter relações sexuais, sentia-se exatamente dessa maneira: como se estivesse carregando algo dentro de si - análogo a um feto que cresce dentro da barriga. 
E então, finalmente, chegou a hora de fazer o parto.
Clara vai dar à luz - mesmo sem nunca ter encontrado saída para a sua escuridão, a não ser pelo próprio nome.
Aliás, antes de mais nada, é preciso ressaltar que há um medo desmesurado durante esse processo...
Não, não é o medo natural que uma verdadeira grávida poderia ter, é algo maior. 
Clara está prestes a dar vida a algo que ela nem sabe o que é. E, certamente, não é outro ser vivo.
No seu quarto, ela está nua, à deriva. Esperando a hora. Sempre esperando...
Seu estado é deplorável. Está aparentemente triste e sentada na beirada da cama diante de suas roupas sujas jogadas no chão. O cheiro da fumaça do cigarro impregnado nelas é tão repugnante quanto o vômito que deixou no banheiro daquele bar. E a repulsa, ironicamente, não é pelo aroma do tabaco.  As circunstâncias dos fatos daquele fatídico contato com sua natureza ébria fedem mais. 
Não cabe a mim entrar em detalhes do que lhe aconteceu. Só posso dizer que envolve fraquezas e, principalmente, sentimentos profundos. Confusos, mas todos filtrados com a mesma intensidade.
Às vezes ela pensa que é bipolar.
Tripolar;
Quadripolar.
A vida - e por dizer 'vida' remeto à sociedade, aos moralismos, às relações humanas - faz com que ela se sinta cada vez mais isolada e desamparada. Os rótulos causam angústia. As buscas incessantes.
Não sabe onde se encaixa. Ou se é cabível de encaixar em algo. 
Por vezes feliz. Outrora infeliz. Feliz. Infeliz.
Felizinfelizfelizinfelizfelizinfelizfelizinfeliz.
Assim segue o ciclo, quase como num loop eterno.
Ela não sabe mais o que quer, somente tem a compreensão do que não gosta. Ela vê. Ela teme. Ela deseja. 
Ela.
Em instantes, vem a autopercepção do seu egoísmo.
A naturalidade do ser.
A verdade é única: Tudo que ela fez consigo mesma tinha mais a ver com fragmentos inúteis que não ajudam a constituir o todo. Algo como tentar montar um quebra-cabeça com peças que não se conectam.
Seu quarto está imerso sob uma penumbra, mas com um simples ato, Clara o ilumina por inteiro. 
O parto acontece sem a ajuda de ninguém e nessa hora acontece o milagre mais surpreendente:
O ser humano faz nascer a si mesmo.

A vida morre e concebe outra - não um bebê e nem mesmo uma outra mulher, apenas vida.